educação infantil cachoeirinha

Trabalhadoras da Educação Infantil de Cachoeirinha (RS) querem enquadramento e estão em estado de greve

Repórter Popular RS

Uma plenária da educação realizada no final de agosto reforçou a decisão das trabalhadoras da Educação Infantil Municipal de Cachoeirinha (RS) de fazer greve caso a Prefeitura não promova o enquadramento delas como professoras. Isto é, que sejam reconhecidas e recebam salários compatíveis com a docência que exercem.

No dia 10 de setembro, as trabalhadoras montaram uma vigília em frente à Prefeitura durante negociação coletiva e panfletaram sua reivindicação desde o começo da manhã. A ação foi organizada pelo Sindicato dos Municipários de Cachoeirinha (SIMCA) e contou com a participação ativa da categoria.

O Repórter Popular RS esteve presente no movimento de luta e entrevistou três professoras da Educação Infantil, que comentam sobre a situação delas na rede municipal.

Leia as entrevistas abaixo:

educação infantil cachoeirinha

Repórter Popular (RP): Qual o histórico da reivindicação do enquadramento e em que pé está a negociação com o município?

Professora 1 – Inez Rodrigues: A luta por essa questão do reconhecimento das atendentes como professoras de Educação Infantil começa com a elaboração do plano de carreira para essa categoria no município em 2007. No entanto, se conseguiu fazer um plano de carreira, mas não se conseguiu fazer o enquadramento ao plano de carreira do magistério tendo como conquista um plano de carreira específico.

De lá para cá, o município continuou fazendo coisas erradas. O município deixou de cumprir o que manda a LDB (Lei de Diretrizes e Bases), desde 1996, fazendo concurso de atendente ao invés de concurso para professora de Educação Infantil. Porém, exigem os mesmos requisitos de formação de uma professora e com as mesmas atribuições, só sem dizer o nome.

E de lá para cá teve várias formas de luta e tentativa de negociação com o governo. Nos últimos tempos, ganhou uma proporção maior, para além da categoria da Educação Infantil nessa luta. Houve audiências públicas, com criação de grupo de trabalho para negociações com o governo.

Sobre como está hoje essa negociação, ampliou para participar também de um movimento nacional, onde participamos enquanto categoria de um movimento maior que pede o reconhecimento em âmbito nacional do reconhecimento dessas trabalhadoras como professoras, de fato, como são. Aqui na cidade, lutamos pelo reconhecimento com o enquadramento no plano de carreia do magistério.

Por aqui, estamos num pé de que a gente fez minutas, discutiu com a categoria. A gente fez luta, estamos fazendo agora abaixo-assinado, panfletagem e discussão com a comunidade. A comunidade nos reconhece como professoras. Estamos tentando negociar com o governo. O governo parece deixar nítido que não se importa com essa pauta. No entanto, tem uma definição da categoria de que  a gente tem que levar a cabo até que tenhamos uma resposta definitiva do governo.

Nós queremos conquistar o enquadramento. Teve alguns pareceres que, em partes, são favoráveis, porque a gente apresentou uma minuta de Projeto de Lei. Teve dois pareceres que, em parte, foram favoráveis, mas o que eles (governo) dizem? Que pode enquadrar uma parte e que não pode enquadrar outra. A nossa luta é coletiva, todo mundo faz a mesma tarefa, temos as mesmas atribuições e então a gente entende que todo mundo tem que ser enquadrado como professora.

RP: O que muda, efetivamente, para a uma trabalhadora esse enquadramento?

Professora 2 – Clélia Mara: a princípio o reconhecimento, pois nós temos atribuições como professoras e não temos essa nomenclatura. É válido que a seja reconhecida pelo fato de que nós desempenhamos as mesmas obrigações de professora, mas temos a nomenclatura de “atendente”. Isso renega direitos que qualquer professor teria, sendo que é excluída toda a importância da infância. Nós temos essa responsabilidade e vamos seguir na luta em Cachoeirinha.

Todo profissional quer ser valorizado, ainda mais se desempenhar a função e ter uma outra nomenclatura. Então, isso nos deixa bem descontentes em função de não reconhecimento. Realmente, fica aquém do que nós temos desempenhado dia após dia. Desvaloriza o nosso desempenho ao desenvolvimento da criança, que vai muito além de ser uma simples cuidadora, pois nós também somos educadoras.

RP: Por que essa pauta também tem que importar à comunidade? O que ela impacta na comunidade?

Professora 3 – Luana Lucas: Eu acho que, primeiramente, é importante a gente lembrar que antigamente a Educação Infantil era vista somente no ponto de vista do cuidar. As professoras estavam ali apenas para cuidar das crianças, cuidar da alimentação, cuidar da higiene… Só que hoje tem o cuidado com o pedagógico também. A gente tem que preparar, pois cada dia que a gente vai para uma sala de aula ele é previamente planejado.

A cada momento, a gente prepara o que vai fazer com os alunos e a gente trabalha o pedagógico em vários momentos. A gente faz os projetos, fazemos as avaliações das crianças… Só que tudo isso demanda tempo e a gente não tem esse tempo para desenvolver tudo o que temos que desenvolver. Então, muitas coisas a gente vai ter que fazer na sala de aula.

O momento que a gente tem que estar atendendo essas coisas mais burocráticas é uma atenção a menos que a gente dá para os nossos alunos. Quando a gente deveria estar ali dando toda atenção a eles, a gente está também se ocupando da parte burocrática que a gente é cobrado, a gente tem que lançar tudo no sistema, a gente tem que dar conta de tudo isso.

Quando um profissional trabalha nessas condições, tu tem que estar atendendo crianças de 0 a 5 anos e também dando conta de coisas burocráticas, com tempo isso vai se tornando num adoecimento. Adoecimento mental, adoecimento emocional e a gente vai lá para o nosso ambiente de trabalho sem aquelas condições plenas como profissionais que a gente poderia ter.

Quando estamos lidando com crianças, nós temos que dar o nosso máximo porque eles exigem atenção, eles exigem do nosso físico quando precisamos atender as necessidades deles… Exige do nosso emocional porque tudo que uma criança passa dentro de uma família reflete dentro de uma sala de aula. A gente tem que administrar as emoções das crianças e como que nós vamos estar administrando tudo isso nos sentindo sobrecarregadas?

Então, a gente precisa do apoio das famílias para ter essas melhores condições de trabalho porque com melhores condições a gente vai ter um melhor atendimento dos filhos deles, dos nossos alunos. A gente vai estar mais plena emocionalmente a aquilo que precisa e sem esse reflexo do esgotamento no ambiente de trabalho.