Seguindo a cartilha do sucateamento: Fiocruz decide desalojar seus pesquisadores

Por Repórter Popular – RJ

Há pouco mais de um mês, no dia 06 de julho, os pesquisadores da Fiocruz que residem no Alojamento Hélio Fraga, zona sudoeste da cidade do Rio de Janeiro, foram informados de que teriam que deixar o local. O anúncio, feito durante uma reunião online, informou que mediante o fechamento, será oferecido a cada pesquisador um auxílio no valor de 800,00 reais para que busquem uma nova moradia.

Nós entrevistamos quatro dos pesquisadores que atualmente residem no alojamento e que compõem o movimento de resistência pela defesa da manutenção da política de moradia. O alojamento está localizado em Curicica, no Centro de Referência Professor Hélio Fraga, campus que conta ainda com um prédio técnico de pesquisa e gestão, uma biblioteca, o ambulatório de pesquisa Germano Gerhardt, uma farmácia e o Laboratório de Referência Nacional de Tuberculose e Micobacterioses, possuindo grande circulação de trabalhadores, estudantes e pacientes.

Os entrevistados relataram que foram surpreendidos quando, do dia para a noite, a gestão da Fiocruz os comunicou da necessidade da remoção dos alojados, alegando preocupação com o aumento da violência na região. A instituição informou aos residentes, em uma primeira reunião, que a remoção seria imediata. Contudo, após reuniões posteriores a resposta mudou para uma remoção que ocorreria de forma gradual. Todavia, em todo o momento não foram apresentados estudos ou planos de transição e nem mesmo um prazo de efetivação.

Diante da situação, a comunidade acadêmica se mobilizou e esteve em peso em uma reunião posterior ocorrida no dia 10 de julho. No entanto, apesar de conseguirem a criação de um Grupo de Trabalho que visava discutir o assunto, os pesquisadores não tiveram suas propostas apreciadas e até mesmo representantes foram impedidos de acompanhar as discussões. Os pesquisadores, que buscam uma saída coletiva, pautada pelo diálogo, afirmam que a instituição tem usado o GT apenas para transmitir informações e que as decisões seguem sendo unilaterais.

Os entrevistados demarcam que há uma tentativa clara por parte da direção da Fiocruz de transferir a responsabilidade financeira e a segurança dos pós-graduandos aos seus respectivos institutos por meio da justificativa da violência no campus. No entanto, o campus do Centro de Referência Professor Hélio Fraga não é o único em território de conflito armado no Rio de Janeiro. O campus de Manguinhos, referência por seu suntuoso castelo na Avenida Brasil, também é afetado pela violência e até mesmo seus prédios já foram atingidos por balas perdidas. A violência cotidiana é retrato da insegurança pública do Rio de Janeiro, requerendo ações em âmbito local, municipal e nacional para sua mitigação.

Caso os pós-graduandos aceitem o auxílio moradia de 800,00 reais, considerando a especulação imobiliária crescente na cidade do Rio e que a maior parte desses indivíduos trabalha em Manguinhos, os pesquisadores correm o risco de serem empurrados para outras áreas de conflito, mas, dessa vez, longe de suas cidades natais, estarão totalmente desacompanhados e sem a rede de apoio oferecida pelos demais companheiros de alojamento.

Outra justificativa apresentada para remoção é a manutenção orçamentária do Alojamento. Sobre o custos, os residentes informaram que apenas a conta de luz é paga pela Fiocruz, sendo a conta de água paga pelo município e a internet utilizada pelo alojamento é a mesma utilizada pelos visitantes do campus.

Os moradores do alojamento chegaram a apresentar planos financeiramente viáveis para aumentar a segurança do campus – como a reconstrução do muro que separava o local de mata dos locais de convivência do campus, camêras de segurança, aumento no número de vigilantes e mais pontos de iluminação. As propostas beneficiariam não apenas os residentes do alojamento, mas também todo o conjunto de trabalhadores e pacientes que frequentam o campus diariamente; no entanto, elas foram ignoradas pela direção da Fiocruz.

Sobre o alojamento

O alojamento se enquadra como uma política de permanência destinada a abrigar pós-graduandos que apresentem um perfil socioeconômico de vulnerabilidade social e ainda aqueles provenientes de países estrangeiros, como países da América Latina e África. Eles devem preencher um formulário de inscrição para disputar uma vaga e, caso não haja vagas disponíveis, abre-se uma fila de espera.

O alojamento é composto de 22 apartamentos com 4 vagas cada, comportando assim cerca de 80 pós-graduandos. Todavia, de acordo com os entrevistados atualmente residem somente 32 estudantes. Isso não deriva de uma baixa procura, mas do fechamento do formulário em setembro de 2025 e do não chamamento dos inscritos na fila de espera.

Atualmente, a maior parte dos pós-graduandos são de origem das regiões Norte e Nordeste do Brasil. Contudo, o alojamento também contempla estudantes do exterior, que deixaram suas famílias, redes de apoio e bens materiais para se dedicar à pesquisa científica na maior instituição de pesquisa biomédica da América Latina. Os pesquisadores afirmam que não se trata apenas de um local de moradia, mas que o caráter coletivo do alojamento propicia um ambiente de acolhimento, adaptações linguísticas e culturais, bem como trocas acadêmicas, auxiliando no aprimoramento de suas pesquisas e no estabelecimento de novas colaborações nacionais e internacionais.

Na entrevista, os pesquisadores relataram que o perfil socioeconômico entre eles é diverso. No alojamento há aquelas pesquisadoras que precisam arcar com despesas adicionais a sua estadia, ajudando, por exemplo, na manutenção de suas famílias do origem em outro estado ou país. Existem ainda pós-graduandos na modalidade de mestrado profissional ou especialização, que não são vinculados a nenhuma bolsa de pesquisa.

O alojamento já vinha apresentando problemas estruturais em decorrência da baixa manutenção pela gestão administrativa, principalmente no que diz respeito à segurança dos estudantes e trabalhadores do polo de Curicica.

Demandas dos pós-graduandos

Os pós-graduandos alvos do desalojamento se organizaram no intuito de construir um diálogo transparente e direto com a Fiocruz em prol de uma política de permanência mais sólida do que o desalojamento e R$800 de auxílio-moradia. Visto que a perda da moradia também significa perder uma importante rede de apoio e troca de conhecimentos e que aceitar os auxílios é aceitar uma política submetida às variações orçamentárias de LOAs que conferiria incertezas ainda maiores, os pesquisadores elaboraram uma carta de reinvidicação à Fiocruz.

Em entrevista, algumas reinvindicações foram destacadas:

  • Manutenção do alojamento com ou sem melhorias;
  • Reabertura do formulário de inscrições para novas vagas;
  • Participação paritária no Conselho Deliberativo da Fiocruz;
  • Melhorias da segurança do atual Alojamento Hélio Fraga, como maior contratação de vigilantes e construção de um muro separando o terreno do campus de Curicica com a área de mata.

Para tal, os pesquisadores estão construindo divulgação de sua situação e abrindo redes de diálogo e solidariedade que apoiem suas demandas.

Acesse aqui a Carta de Reinvindicação do Movimento pela Permanência Estudantil.

Acompanhe as notícias do movimento de resistência a partir de suas perspectivas enquanto afetados diretamente por meio de sua conta do Instagram @permanenciaestudantil.

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