Experiência social e integridade estética em Monster (2023)

Retomamos hoje a coluna sobre cinema e sociedade em 2024, que passará a ser mensal. O seu objeto hoje é Monster (2023), filme que encerramos o ano passado comentando. Este texto é um aprofundamento daquele saído em fins de dezembro de 2023.

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Desde os anos 90, quando tivemos o último movimento artístico relativamente coeso a reivindicar uma estética autêntica no Cinema, o Dogma 95, do qual despontam Thomas Vinterberg e Lars Von Trier, acompanhamos o embotamento da capacidade de produção cinematográfica de qualidade. As razões certamente são muitas e partem do pressuposto da dessubjetivização do humano produzida pelo avanço do capitalismo. Um de seus sintomas é a produção em massa dos filmes Marvel nas últimas décadas. Embotamento, dito acima, no sentido de perda da sensibilidade artística capaz de captar uma experiência história autêntica através da forma fílmica. Contudo, sempre há nos escombros das mercadorias possiblidades de realização da sétima arte que valem a pena, que nos colocam de frente a aspectos da vida humana transfigurados esteticamente em filme. Monster, de Koreeda, hoje nos cinemas, é um exemplo.

Hirokazu Koreeda é um cineasta japonês da penúltima geração – pensando naqueles que começaram a produzir em meados dos anos 80, como os irmãos Coen e Paul Thomas Anderson nos Estados Unidos, Walter Salles no Brasil, os irmãos Dardenne na França e Juan José Campanella na Argentina, por exemplo. Geração, portanto, anterior ao boom dos filmes de super-herói – e também, diga-se de passagem, dos streamings. Eu o conheci no drama Boneca inflável (2009), que trata da impossibilidade das relações pessoais numa sociedade de capitalismo tardio, sociedade da qual ironicamente surge um objeto sexual que adquire e experiencia a subjetividade do ser humano.

Ao longo de sua filmografia, o diretor explorou temas familiares, relações interpessoais, os sentimentos mínimos, íntimos e cotidianos que compõem as pessoas e as tornam humanas, por demonstrarem contradição, dúvida, amor, ódio, egoísmo, etc. Pais e filhos (2013) aborda uma troca de bebês na maternidade descoberta anos depois e suas implicações; já Nossa irmã mais nova (2015) investe no encontro de quatro irmãs após a perda do pai e da relação que daí se transforma. Em 2018 foi premiado com a Palma de Ouro no Festival de Cannes com o longa Assunto de família, que aborda uma família um tanto tresloucada revelando não só, mas também por isso, a desigualdade de classe em uma cidade do Japão. Monster, seu último longa, mantém o objetivo de fazer emergir da forma do filme a sensação de vitalidade, possibilitando uma imersão interessante no mundo infanto-juvenil do país oriental.

Em Monster a história de dois colegas de ensino fundamental em meio ao bullying e omissão da escola, às violências domésticas, às péssimas relações familiares, aos traumas de infância, à descoberta da sexualidade, é mostrada com a sensibilidade característica do diretor através de cenas silenciosas, em que câmera percorre o cenário captando os sentimentos pela interpretação dos atores, muitas vezes sutis, mas poderosas. O uso de som diegético auxilia na construção das tomadas, e a luz natural, principalmente em quadros nas áreas rurais, reforça o sentimento de liberdade almejado pelos jovens. A chuva como elemento simbólico de passagem e purificação é bem utilizado, criando uma sequência final de grande força.

Aliás, sua estrutura narrativa é interessante, dialogando com Tarantino de Cães de aluguel (1992) e Jackie Brown (1997), indo e voltando na mesma cena com pontos de vista diferentes, sugerindo e cancelando leituras interpretativas, criando camadas de significação. Esse vai e vem têm função estética, porque reforça a confusão que o jogo de versões sobre um problema na escola suscitou. A montagem do longa também sugere esse movimento, intercalando os jovens protagonistas, que ora se opõem e ora se juntam, não só no plano do enredo, mas da sequência imagética do filme. Monster também se relaciona com a tradição cinematográfica japonesa: aqueles rumores, rixas, individualismos baratos que fazem lembrar a proposição machadiana da supremacia qualquer, nos fazem lembrar da família complicada de Era uma vez em Tóquio (1953), de Yasujirô Ozu, que nem a morte da matriarca pôde arrefecer.

Embora em escassez, filmes bons seguem sendo produzidos. Num contexto de apagamento da experiência no cinema, é sempre bom quando encontramos um objeto artístico do qual sentimos a pulsação da vida. O pé no barro e a sensação do sol depois da chuva, tal como no filme, talvez sejam o melhor exemplo.

Rodrigo Mendes