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Cervejaria Cerpa em Belém (PA): crise, recuperação judicial e o debate sobre autogestão operária

Repórter Popular PA

A Justiça do Estado do Pará aceitou, no mês de setembro, o pedido de recuperação judicial da Cerpa (Cervejaria Paraense). Na prática, a empresa ganha tempo para renegociar dívidas e tentar continuar funcionando. A cervejaria tem 60 anos, cerca de 400 empregados diretos e já foi dona de 65% do mercado paraense. Hoje, tenta evitar a falência.

A crise de sucessão que paralisou a empresa começou em 2008, quando o fundador Konrad Seibel deixou o Brasil rumo à Alemanha para tratar da saúde. Ele morreu em 2012, quatro anos depois, sem ter transferido formalmente o controle da companhia. A saída deixou a empresa sem rumo por anos: executivos e advogados ligados à Cerpa chegaram a afirmar que Seibel estava vivo e administrando uma fábrica de cimento no interior da Alemanha.

O único herdeiro, Konrad Franz Seibel, só poderia assumir o comando ao completar 24 anos ou terminar a faculdade, conforme o testamento do pai. Enquanto isso, a mãe dele, Helga Seibel, precisou brigar na Justiça pelo direito de administrar a empresa provisoriamente.

Sem comando claro, as decisões estratégicas pararam, os investimentos foram suspensos e as máquinas ficaram obsoletas, funcionando através de improvisos feito pelos próprios funcionários. Isso ocasionou, de forma implícita, uma despreocupação da alta gestão sobre investimentos em peças e qualificação pessoal frente ao controle de perdas e horas trabalhadas em escalas exaustivas como prioridades mais pontuadas pelos gestores nesse cenário de estagnação.

A dívida acumulada com o governo do Pará se transformou na maior do estado. Segundo levantamento da Procuradoria Geral do Estado, o passivo fiscal da Cerpa ultrapassa R$ 5,8 bilhões em dívida ativa. A empresa é classificada como “devedora contumaz” e figura como a maior devedora tributária do Pará.

Em 2021, dirigentes da companhia foram condenados por sonegação fiscal. A Cerpa nega irregularidades e diz que os valores estão sendo discutidos na Justiça. Em abril de 2026, a Procuradoria perdeu o prazo para apresentar contrarrazões em um recurso da empresa que discute a penhora de 30% dos valores de contratos com terceiros — medida que, segundo a defesa da cervejaria, comprometeria cerca de 40% da receita operacional e inviabilizaria a continuidade das atividades.

No meio dessa história, surge uma pergunta cada vez mais comum em fábricas em crise: se os donos quebraram, por que os trabalhadores não assumem?

A autogestão é quando os próprios empregados administram a produção, decidem juntos os rumos e dividem os resultados. Não é invenção: no Brasil, a Flaskô, indústria química de Sumaré (SP), foi recuperada pelos trabalhadores em 2003. Eles reorganizaram a produção a partir de um conselho de fábrica que combinava democracia direta e delegação.

A fábrica operou sob controle operário até 2018 e chegou a reduzir a jornada de 44 para 30 horas semanais, sem redução salarial. A Usina Catende, em Pernambuco, fundada em 1898, é apontada por estudiosos como a maior experiência de autogestão da América Latina: após a falência do grupo proprietário, os camponeses assumiram a gestão da usina.

No caso da Cerpa, não há decisão sobre isso. Para a autogestão sair do papel, seria preciso fortalecer a autoorganização dos trabalhadores, apoio jurídico, mobilização tanto dentro da planta quanto fora dela em solidariedade. Por enquanto, o processo segue, e os cerca de 400 trabalhadores continuam acompanhando o que virá.

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