Estudantes, professoras e mães: como o Ensino Remoto Emergencial afeta a vida das mulheres trabalhadoras

Mulheres na Resistência – RJ

O contexto da pandemia modificou a vida de muitas famílias, ou melhor, expôs ainda mais suas vulnerabilidades. Passamos a marca de 100 mil vidas perdidas e dentro da classe trabalhadora, a maioria foi gravemente afetada. O desemprego e a carestia de vida se intensificaram e houve uma mudança radical na forma de garantir a sobrevivência, alimentação, usos do tempo, jornadas de trabalho e lazer (ou a falta dele). Com a ausência do espaço escolar, muitas famílias precisaram se mobilizar para mais responsabilidades: educação de filhos/as, garantias trabalhistas, alimentação em tempo integral e proteção a formas de violências familiares (ou ao menos uma tentativa de interferência). Hoje, 11 de agosto, no dia da/o estudante, nós do coletivo Mulheres na Resistência- RJ escrevemos essa nota para questionar os impactos que a imposição do Ensino Remoto tem sobre as mulheres mães, professoras, estudantes e trabalhadoras.

As famílias, que de forma geral contam com estudantes e professores/as, precisam de todas as condições materiais para manterem um ensino remoto, que não estão garantidas. Primeiro, são as necessidades básicas de uma casa e tecnologias para o estudo ou aula; segundo, a sobrevivência, que envolve questões para além da falta de internet, que é a fome, o desemprego, riscos de contágio e situações de violência. Fala-se, atualmente, em um “apagão” do ensino público, pois relatos em todo o país evidenciam a falta de acesso da maioria dos/das estudantes às várias plataformas e atividades virtuais. Na pesquisa TIC Domicílios (Pesquisa sobre o Uso das Tecnologias de Informação e Comunicação nos Domicílios Brasileiros), feita em 2018 (divulgada em 2019), o telefone celular tem sido o principal aparelho para o acesso à internet no Brasil (97%). Já o acesso pelo computador (com ou sem aparelho de celular), chega a ser muito menor (43%). Essa possibilidade de conectar-se à internet é maior entre professores e estudantes do Nível Superior, com renda familiar alta. Entre classes mais abastadas, o acesso às redes de internet é generalizado, e entre os mais pobres, somente 48% conseguem conectar-se (as chamadas classes D e E). Tais dados expõem o grande abismo entre as pessoas no Brasil, que tem se agravado ainda mais no momento de pandemia, onde os corpos periféricos, de mulheres, pretos/as, indígenas e LGBTs se tornaram ainda mais vulneráveis.

Desde que o MEC classificou as aulas remotas como carga horária, estados e municípios colocaram em prática planos de ensino, que obrigam professores/as a darem aulas virtuais, com telefones e computadores de uso pessoal (muitas vezes precários ou inexistentes). Em consequência, estudantes dos vários níveis de ensino foram empurrados para plataformas e ferramentas online, muitas vezes complexas inacessíveis em aparelhos de celular. Além disso, tornou-se comum a entrega de dados pessoais a empresas ditas especialistas em educação”, sem nenhum filtro ou aviso prévio. Os nomes de alunos/as e professores/as, documentos e contatos pessoais foram entregues e registrados em plataformas de aula, em acordos pouco transparentes.

Desde que escolas de ensino básico paralisaram suas atividades, foi anunciada a “nova” modalidade de ensino, uma espécie de paliativo para manter as burocracias em ordem (como frequências em diários, relatórios, planejamentos, folhas de ponto, etc.). Essa parte mais fria do contexto escolar, se tornou a forma de garantia do trabalho dos/das professores/as e da participação de estudantes. Dentro de uma lógica de que se docentes estão sendo pagos e alunos/as beneficiados (bolsas e/ou cestas básicas), o trabalho não pode cessar, mesmo que essa modalidade de ensino/trabalho não tenha sido parte do currículo de formação das licenciaturas, tampouco disciplina escolar.

No caso de professores/as, produzir conteúdos online é mais do que possuir uma câmera e carisma, mas demanda infraestrutura, recursos tecnológicos, estudo prévio dessas ferramentas, adequação de conteúdos e uma reformulação da didática (que muitos dominam em sala de aula presencial). O trabalho de home office, como o envio e recebimento de conteúdos de aula, demandam uma certa organização, inviável para muitas realidades de docentes, principalmente da educação básica privada.

Segundo o Censo Escolar de 2017, professoras são a maioria no ensino básico (80% do corpo docente, dos 2,2 milhões de professoras/es do Brasil. E a maioria delas (52,2%) tem mais de 40 anos. Já no ensino superior configuram 45% do corpo docente, dos mais de 350 mil professores/as do país. Portanto, a questão de gênero está colocada no ensino remoto. Professoras mulheres, além de encararem essa forma de trabalho precisam conciliar, em suas casas, vida profissional e organização do lar/familiar, que também demanda, muitas vezes, o dar afeto. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua, 2019) mulheres dedicam 18,5 horas a mais em atividades domésticas e de cuidados. Homens que trabalham usam somente 10,5 horas de seu tempo para essas funções. O que ilustra bem o crescimento da jornada de trabalho de todas as mulheres, professores e/ou mães de estudantes.

Se, em um contexto dito normal”, mulheres já se encontram sob maiores riscos de enfrentarem transtornos psicológicos (devido à sobrecarga de trabalho, estresses, violências dentro e fora de casa), na pandemia, essas situações se agravaram, pois outras questões apareceram: dificuldade de acesso à assistência médica, encarecimento de produtos básicos da alimentação e higiene, aumento do desemprego, reduções de salários e a função dos cuidados (idosos, doentes, crianças). Nesse sentido, o Ensino Remoto Emergencial (ERE) se coloca como mais um peso nesta balança, envolvendo uma série de outros elementos, como: acesso à internet, equipamentos para assistir ou dar as aulas e espaço adequado para estudar ou lecionar em casa. No caso das mães, recai sobre elas a preocupação de garantir a presença em aulas não só para si, mas também para seus/suas filhos/as. Diante de tudo isto, e com a implementação do Ensino Remoto em diversas escolas e universidades públicas e particulares, um número significativo de mulheres mães, professoras, estudantes e trabalhadoras da educação vem enfrentando diversos problemas relacionados à estresse, como ansiedade, insônia e Síndrome de Burnout.

Em um momento em que os cuidados com a saúde se colocam na ordem do dia, a saúde e dignidade das mulheres é mais uma vez invisibilizada, principalmente de mulheres negras, as mais vulneráveis nesse país racista. No caso das estudantes, o que está apontado com o Ensino Remoto é o aumento da evasão, pois os únicos elementos considerados neste debate, entre as instituições de ensino, são os de acesso digital. Enquanto que outros fatores mais urgentes são deixados de fora, como se fossem questões individuais e de menor importância, ao invés de problemas concretos de boa parte do estudantado. Enquanto isso, professoras da educação básica são culpabilizadas pela evasão de alunos/as, como se o único motivo para o não acompanhamento das aulas fosse o desinteresse deles/as. Problema que soma-se às muitas horas a mais de trabalho virtual, do que o correspondente a seus salários.

Aqueles que defendem a implementação do Ensino Remoto a qualquer custo nas tentam nos convencer que é apenas uma simples” adaptação da educação ao contexto de isolamento, ou até que facilitaria nossos estudos e trabalhos. Ou seja, fica evidenciado que as/os de cima e as/os que defendem seus interesses, através desse projeto de educação mercadológico, não levam em consideração a real situação dos lares brasileiros e nem a quem se pesa todo o trabalho doméstico.

Estudar ou trabalhar de casa não é algo simples, nada que pode ser resolvido somente com distribuição de chips de internet. Se olharmos para a situação das mulheres veremos que, para nós, trabalhar em casa” já é uma realidade histórica e não uma situação meramente emergencial”. É algo que não vem de hoje, mas de uma violenta estrutura de dominação, na qual trabalhamos fora de casa – mal remuneradase dentro de casa sem remuneração alguma criando filhos/as, administrando a casa e cuidando da família.

Esse gasto desproporcional com a execução de funções que são essenciais para a manutenção e reprodução das pessoas, ou seja, um trabalho imprescindível, porém desvalorizado pelo modelo econômico capitalista, recai quase que somente sobre as mulheres e meninas. Essa desvalorização do trabalho doméstico que, por mais que tentem não enxergar, é o que proporciona a acumulação capitalista. Tanto no passado como hoje, é um pilar da exploração, que nos culpabiliza por toda a situação que ainda vivemos como mulheres trabalhadoras.

A sobrecarga nos impediu, durante muito tempo, de obtermos educação e instrução, nos apartando das deliberações e debates políticos. À base de muita luta pela margem, nos apoiando mutuamente, nos educando, nos politizando, conquistamos alguns acessos ao sistema de educação formal e fizemos enfrentamentos ao Estado por nossos direitos. Desse modo, muitas de nós chegamos às escolas e universidades com anseios ainda maiores do que conseguir um diploma ou uma qualificação para o mercado de trabalho. Também visamos continuar com nossas críticas e lutas às limitações ainda impostas às mulheres, em busca de um outro mundo.

Agora, através da aprovação atropelada do ERE nas escolas e universidades, a nossa dupla jornada de trabalho se estendeu a uma tripla jornada, mais uma vez nos obrigando a trazer um maior número de funções para casa. Fato que desenha um cenário de sobrecarga especialmente cruel para nós. Mães universitárias que antes mesmo da pandemia já passavam por dificuldades para conseguirem estudar, trabalhar e dar conta dos cuidados com as/os filhas/filhos e com a casa, se encontram agora em uma situação ainda mais agravada com a implementação do ensino remoto. Além de não conseguirem contar, no momento, com as creches universitárias (direito garantido) recaiu sobre estudantes mães-solos, a maior parte dos cuidados de criação. Segundo dados da V Pesquisa Nacional de Perfil Socioeconômico e Cultural dos Graduandos das IFES, de 2018, 68,5% de estudantes solteiros/as com filhos eram mulheres. Além disso, mesmo quando moram com outras pessoas, como pais ou outros familiares, o trabalho doméstico e o cuidado com filhos, idosos e enfermos têm sua carga mais pesada sobre as mulheres, que representam, segundo a mesma pesquisa, 60% do/as estudantes com filhos/as. Assim, o Ensino Remoto seria mais uma atividade para contribuir com a sobrecarga e a exaustão física e mental das estudantes mães.

Com os filhos em casa por mais tempo, a carga de trabalho aumentou, e essas estudantes tentam realizar todas as tarefas e demandas, que já exerciam antes da pandemia, somadas às novas (múltiplas) tarefas que surgem, como acompanhar e ajudar filhos/as nas aulas e manterem seus estudos em EaD. A carga de trabalho doméstico é intensificada pela necessidade de maiores cuidados com a higienização das compras e da casa, e pela maior demanda de produção de refeições que antes eram oferecidas nas creches, escolas e no trabalho. As questões das mães universitárias sempre devem ser enxergadas como assuntos de extrema importância, para que se tenha um ensino realmente inclusivo e acessível para todas e todos, pois o modelo do ERE tem se mostrado excludente para com a realidade destas estudantes.

Assim como ocorre com as mães estudantes, também no caso das mães trabalhadoras a imposição do ensino remoto vem para intensificar a sobrecarga de tarefas domésticas e, por vezes, coloca essas mulheres em uma situação insustentável de se resolver em um contexto de pandemia. Para aquelas que estão trabalhando desde suas casas, também de forma remota, realizar as demandas do trabalho de forma paralela ao cuidado contínuo dos filhos, já é por si só uma exigência desmedida. No caso em que as crianças e adolescentes estão submetidos ao ensino remoto de suas escolas, essa tarefa se torna ainda mais impossível. Dificuldades de acesso tecnológico, de concentração, de compreensão das atividades e o acompanhamento necessário da rotina escolar, fazem com que as mães, socialmente impelidas a esses cuidados, necessitem dar todo o suporte nessa educação, ao mesmo tempo em que precisam se desdobrar nas tarefas de seus próprios trabalhos.

Entretanto, sabemos que grande parte das mães trabalhadoras não estão exercendo suas funções de forma remota. Muitas mulheres, sobretudo mulheres pretas mais precarizadas, estão trabalhando em ruas, nos diversos setores informais e empregos relacionados aos serviços básicos e ao cuidado: limpeza, saúde, transportes. Os/as filhos/as, que antes permaneciam nas escolas durante parte da jornada de trabalho, agora encontram-se integralmente em casa, demandando cuidados que essas mães não têm condições de oferecer. A alternativa, em grande parte dos casos, é deslocar essas crianças para as casas de parentes e conhecidos, muitas vezes idosos, que são grupo de risco na pandemia. Em casos mais extremos, em contato com potenciais abusadores. Nesses casos, a assistência aos estudos fica ainda mais prejudicada, além de transferir a responsabilidade pelo ensino para outra rede de apoio, composta sobretudo por outras mulheres (avós, tias, irmãs).

Em ambos os casos, essas mulheres já estão submetidas a uma intensificação da própria jornada de trabalho. No caso das mães que trabalham de forma remota, a carga de trabalho aumenta, pois a modalidade favorece a exploração de horas extras não remuneradas, e no caso das que trabalham fora, a necessidade de uma jornada mais extensa surge devido aos cortes na renda provocadas pela crise em que vivemos. Ou seja, a suposição de que os filhos em regime de ensino remoto em casa contam com estrutura adequada é uma falácia, e o preço por essa falácia é paga pelas mulheres mães trabalhadoras, com uma demanda a mais, apesar da já difícil realidade em um contexto de pandemia.

Diante disto, a luta contra o Ensino Remoto nas escolas e universidades faz parte da luta por dignidade para atravessar a pandemia. Não à toa, em diversas universidades do país estão sendo impulsionadas campanhas contra o Ensino Remoto, articulando docentes, estudantes e técnicos-administrativos. Algumas destas campanhas vem trabalhando com canais de acolhimento de denúncias de assédios morais relativos ao trabalho e estudo remoto, o que pode ser uma ferramenta importante para acolher e garantir a participação das mulheres na construção desta luta. Da mesma forma, trabalhadoras e trabalhadores da Educação Básica vem se articulando contra o trabalho remoto e em solidariedade a diversos de seus estudantes que não tem condições de acesso ao estudo virtual. O que se coloca como perspectiva de luta para as diversas mulheres, duramente afetadas pelas políticas excludentes de trabalho e ensino remoto, no meio de uma das maiores crises sanitárias e de saúde da história, é o que sempre esteve em perspectiva na luta das/dos de baixo: solidariedade de classe, apoio mútuo e fortalecimento dos espaços de resistência.