Entrevista com o professor Rafael, demitido em Bento Gonçalves (RS) por perseguição das ideias

Por Repórter Popular – RS

Em 29 de maio desse ano foi consumado o fato da demissão do trabalhador da educação Rafael da Costa. O professor da rede municipal vem sendo perseguido através de um processo que corre desde o ano de 2025 pelo governo da cidade da serra gaúcha. No dia 15 de junho, sindicatos e apoiadores fizeram um ato em frente à Prefeitura para defender sua causa e alertar sobre um medida que é considerada de perseguição política e ideológica. O REPOP aproveitou para conversar com Rafael sobre o caso.

REPOP: Vamos começar com uma breve apresentação, seu trabalho como servidor público, sua formação docente, sua posição como sindicalista de base independente do governo e dos patrões da serra gaúcha. Desde quando está na rede pública de Bento, houve alguma ocorrência relacionada a sua vida como trabalhador da educação antes desse caso?

Rafael: Bom, ingressei no serviço público em 2004, em um contrato temporário do estado do RS. Desde então, passei pela rede pública municipal de Gravataí e Porto Alegre. Até que, em 2017, fui chamado para assumir um concurso público como professor em Bento Gonçalves (RS).

Nesta cidade, procurei me somar às atividades chamadas pelo sindicato. Em 2019, tivemos um dia de paralisação contra mudanças que a prefeitura queria fazer no fundo previdenciário dos servidores. Notei que havia um clima de receio entre a categoria, mas achei normal. Depois desse dia, os professores contratados que participaram da ação foram todos demitidos, sumariamente. Isso foi algo que me indignou. Mas reparei que minha indignação, com raras exceções, era só minha. O sindicato mesmo não tomou muitas medidas para exigir a reintegração dos colegas. Começava a entender como funcionavam as coisas por aqui. Eu ainda estava em estágio probatório, mas comigo não aconteceu nada. Também não tive problemas na minha vida profissional, mais do que qualquer outro professor tem.

REPOP: Pode nos contar como tu chega ao mundo dos quadrinhos, do cartunismo, charges. Vale também dizer as experiências como escritor e suas relações com a cultura e o pensamento crítico.

Rafael: Os quadrinhos sempre foram uma paixão minha, desde a infância. Durante a faculdade de geografia, participei do movimento estudantil e sempre colaborava nos panfletos e cartazes com tiras ou cartuns. Mas ainda não me via como autor de quadrinhos ou como alguém que poderia viver disso, era algo pontual. Mais para perto do fim da faculdade, após fazer uma oficina de quadrinhos no Teatro Renascença, comecei a pensar em me dedicar mais a essa área. Sempre tive muitas ideias e queria colocá-las no papel.

Porém, o trabalho, a atividade militante e a vida em si acabaram ocupando mais minha atenção. Apesar disso, publiquei uma história em quadrinhos chamada “Mais que palavras”, sobre a vida do anarquista expropriador Miguel Arcángel Roscigna. Depois ainda consegui publicar outra, sobre o chamado “sequestro dos uruguaios”. Um caso envolvendo a apreensão ilegal de dois militantes uruguaios em Porto Alegre, em 1978. Essa HQ se chamou “Tchau, Yano”. Ambas publicações de forma independente.

Em Bento Gonçalves, me foquei em uma história que envolvia a temática guarani missioneira, um tema que sempre me fascinou. Lancei um livro de ficção com o título “Yvytu e o Palavra Bonita”, uma história sobre uma garota guarani que cresce como cristã em uma redução jesuítica fictícia, e, em uma certa altura de sua vida, deixa a redução em busca das suas raízes indígenas. Essa história também ganhou uma versão em quadrinhos, desenhada por mim. Estou lançando ela este ano e foi viabilizada através de financiamento coletivo pela internet.

REPOP: Passando aos fatos do processo administrativo disciplinar (PAD) que foi aberto no ano passado. Em que contexto político e social e com quais acusações o ex-prefeito Diogo Siqueira começa a mover a perseguição? Como se desenrolou o processo antes de chegar até o ponto absurdo que estamos?

Rafael: O ano de 2025 iniciou com mobilização da categoria municipária. O prefeito Diogo Siqueira colocou um projeto de retirada de direitos dos servidores, como licença-prêmio e biênio. Precarizando as condições do servidor público. Ele fez isso sem diálogo algum com a categoria. Não quis receber o sindicato em momento algum. O projeto, obviamente, foi aprovado pelos vereadores. Nesse contexto, comecei a elaborar charges críticas às políticas do prefeito e à sua administração. Ele é daqueles políticos de redes sociais, que gostam de fazer sensacionalismo para sua base de apoiadores. Durante todo o tempo que durou a mobilização, e mesmo depois que o sindicato se deu por vencido, eu continuei postando charges.

Em setembro, quando postei charges sobre um outro assunto não ligado à política local, foi quando tive problemas. Elas faziam referência à morte do supremacista branco de direita Charlie Kirk. Uma semana depois que postei esse conteúdo, vereadores bolsonaristas de Bento Gonçalves fizeram um linchamento virtual contra mim, sem revelar meu nome e minhas redes. No fim desse dia, o prefeito, atendendo à histeria dos vereadores, anunciou meu afastamento preventivo. Como se eu representasse algum perigo iminente para meus alunos e colegas. A partir daí tive apoio de meus companheiros da militância libertária, de colegas do município, da associação dos geógrafos, de amigos, de artistas cartunistas e de deputados de esquerda.

Conseguimos reverter a decisão de afastamento, mas o processo disciplinar que foi aberto seguiu rolando, culminando com minha demissão, fim de maio deste ano.

REPOP: E como é que você recebe o comunicado no final de maio desse ano de que o prefeito Amarildo, substituto de Diogo, o havia demitido?

Rafael: O resultado demorou muito para ser anunciado, e meu advogado não teve permissão para ver o texto da decisão antes dela ser assinada. Fomos pegos de surpresa. Nada do que as testemunhas falaram em minha defesa foi levado em consideração. Foi como se a decisão já tivesse sido tomada antes do julgamento. O prefeito Amarildo apenas a legitimou.

REPOP: O REPOP tem buscado noticiar e repercutir o caso, junto com outras mídias alternativas, vimos que até os grandes meios de comunicação burguesa noticiaram. Que apoio tem recebido e que ações foram feitas pra responder a esse abuso autoritário do governo de Bento?

Rafael: Recebi notas de apoio de muitas entidades, sindicatos, partidos políticos e mandatos de deputados. Advogados também se dispuseram a apoiar com orientação. Conseguimos fazer uma manifestação, este ano, em frente à prefeitura. Participaram o sindicato dos municipários de Cachoeirinha, que são companheiros que já conheço há muito tempo. Mas também estiveram pessoas da Associação dos Servidores da UFRGS, do PCBR da serra gaúcha, o deputado Pepe Vargas e amigos e amigas. Também recebi convite para participar das atividades do Observatório Nacional da Violência contra Educadores/as, uma iniciativa de pesquisadores da UFF que procura fomentar um movimento nacional com essa temática. Pois a perseguição aos profissionais da educação é uma realidade encontrada em todo o Brasil.

REPOP: Para finalizar essa breve entrevista, o que indicamos pra quem é solidário e quer seguir apoiando ou não apoiou ainda sua causa? Tem alguma ação ou movimento programado? Espaço aberto pra deixar seu recado ou mensagem pra nossos leitores.

Está circulando na internet uma petição online a meu favor. Uma série de lives nas redes sociais, bem como seminários presenciais estão sendo programados para continuar debatendo o tema na sociedade. Essa é uma realidade que precisa ser mais conhecida. Ainda temos sindicatos de educadores que não compreenderam que essa é uma demanda trabalhista também, não apenas jurídica. No mais, agradeço o espaço e convido os leitores e leitoras a conhecerem minhas redes e meus trabalhos como autor de quadrinhos e literatura.

Muito obrigado!

A imagem de capa é da ASSUFRGS.

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