Ancestralidade e resistência: uma roda de conversa com o Baque Mulher de Joinville e terreiro Casa Ogum Beiramar

Escrito pela batuqueira Clarice, do Baque Mulher Joinville

No último sábado (30) na AMESP (Associação de Moradores da Entrada do Espinheiros), aconteceu uma roda de conversa mediada pelo Baque Mulher Joinville, com duas mulheres que fazem parte do terreiro Casa Ogum Beiramar: Elaine Mendes e Gilmara Farias.

Elaine, conhecida como Naninha, é Ogan há 15 anos, porém frequenta terreiro de umbanda desde criança. Autodidata pelo mundo da percussão, com muita fé, persistência e determinação, vem abrindo portas e mostrando que as mulheres também podem ocupar esse lugar. Gil, iniciada na Casa Ogum em 2014, é formada em Artes Visuais.

A Casa Ogum, localizada no Comasa, iniciou suas atividades em 2011 pela iniciativa de mãe Denise, que frequentava a Casa do Pai Jorge de Xangô, um dos Terreiros de umbanda mais antigos de Joinville, com surgimento na década de 80.

Na roda de conversa, Gil e Elaine compartilharam seus relatos pessoais, percorrendo uma trajetória de desafios, ultrapassando barreiras e estereótipos impostos pela sociedade.

Vivemos, atualmente, tempos de retrocesso. Ainda vemos pessoas demonizando as religiões de matriz africana e, tentativas como o PL 50, evidenciam a ausência de diálogo entre o poder legislativo, o poder executivo e a população — especialmente a população de terreiro.

É lamentável que, em vez de promover escuta e respeito, vejamos discursos de ódio sendo disseminados por parlamentares que têm o dever de dialogar com o povo em todas as esferas.

Antes de qualquer coisa, é preciso enfatizar que temas como o racismo, precisam ser discutidos em todos os lugares — inclusive dentro dos próprios terreiros.

Temas sensíveis precisam ser abordados com urgência e responsabilidade. E é sempre importante lembrar que a espiritualidade não está dissociada da razão — elas caminham juntas. Por isso, discussões e diálogos precisam acontecer, inclusive dentro da nossa própria bolha.

A origem dos terreiros é negra. É ancestralidade negra

Que nesta segunda-feira (1º), Exu nos traga habilidade de comunicação — para falarmos com afeto e firmeza — e assim enfrentarmos tudo aquilo que nos atravessa. Exu caminha ao lado da ética e da honestidade. Que possamos nos respeitar e compreender o valor das tecnologias ancestrais negras.

Que Ogum possa cortar as barreiras que ainda nos impedem de realizar a travessia com o coração aberto. Que sejamos capazes de construir conexão e empatia com outras pessoas.

Escolher caminhos exige coragem — coragem de honrar as histórias dos que vieram antes de nós.

Falar sobre espiritualidade, especialmente em se tratando das religiões de matriz africana, é falar de muito mais do que fé: é falar do corpo político, do território e da forma como existimos nesta cidade. Corpos que querem e merecem ser vistos como parte integrante da história. Como construtores da história.

Criar raízes não é sinônimo de ficar parado. É sinônimo de saber bem quem se é. Sempre que possível, é necessário beber da fonte de onde viemos. Ação, diálogo e respeito são fundamentais.

Falar sobre racismo e machismo ainda é urgente — especialmente em espaços onde esses temas ainda são evitados. É importante que estejamos em constante movimento, com ação e autocrítica frente a tudo que nos desconecta.

A espiritualidade e suas práticas não podem estar desconectadas do diálogo político. Precisamos mostrar que a luta feminista, antirracista e antixenofóbica é — e deve ser — uma luta coletiva.