Por Emilly Silva, integrante do Baque Mulher Joinville
As mulheres da minha nação
São guerreiras, batuqueiras
Baianas, Yalorisás
São guerreiras, batuqueiras
Baianas, Yalorisás
Conhecem a fundo os segredos do mundo
Com o brilho da Oxum e a coragem de Oyá
Pedimos a bênção de Mãe Joana, a Mestra que possibilita e conduz a atuação do Baque Mulher em território nacional e internacional.
Este é um relato da roda de conversa que abriu o Encontro Estadual do Baque Mulher no dia 17 de abril de 2026 em Maringá, e dos eventos que deram sequência à vivência deste encontro.
A roda de conversa foi composta por 4 mulheres:
Mestra Joana D’Arc Cavalcante: Primeira mulher a liderar uma nação de maracatu, Mestra da Nação Encanto do Pina, Patrimônio Vivo de Pernambuco, Yaquequerê do Ylê Axé Oxum Deym. Criadora e Mestra do Movimento de Empoderamento Feminino Feministas do Baque Virado- Baque Mulher. Nascida no bairro do Pina na comunidade do Bode, na sua casa pelas mãos da sua avó.
Bianca Silvério: Artista há 12 anos, atriz, artesã, preparadora de elenco.
Eloá Lamin: Educadora, pesquisadora, historiadora e batuqueira.
Laís Fialho: Mediadora da roda, pesquisadora, produtora artística e cultural e batuqueira.
A roda abre o Encontro trazendo ao diálogo as histórias de trajetória destas mulheres negras nos espaços em que ocupam: A rua, a universidade, a escola, o batuque, a família.
Mestra Joana define o processo de formação do Baque Mulher como orgânico, assim como o da sua liderança na Nação. É desde o berço que ela vivencia estas funções, pois toda sua família é histórica na Nação do Encanto do Pina, assim como no Ylê Axé Oxum Deym, historicamente sustentados pelas Mães do Pina, mulheres que guerrearam pela sua Nação, mantendo a tradição secular viva até os dias de hoje.
Foram as Mães do Pina que, através da sabedoria dos búzios, confirmam a regência de Mestra Joana ao Encanto do Pina. Mesmo antes desta função, Mestra Joana conta que já trabalhava nos bastidores pela Nação e tocava todos os instrumentos. Como muitas de nós sabemos, não foi sempre que as mulheres puderam tocar os instrumentos no maracatu, e muito menos apitar uma Nação. Na verdade, este é um fato histórico bastante recente e alcançado através de muita luta, fé e ousadia destas mulheres citadas. Quando Mestra Joana assumiu o Encanto do Pina em 2008, houve um grande esvaziamento por parte dos homens batuqueiros que não aceitavam ser liderados por uma mulher.
Neste momento, ainda não haviam muitas mulheres na Nação pois era o início da chegada das mulheres ao toque dos instrumentos. Mesmo com estas dificuldades, Mãe Joana, que já tinha vários projetos sociais na comunidade em contato com as jovens e crianças, conseguiu colocar a Nação na rua no mesmo ano de 2008 e foram campeãs do grupo de acesso, atingindo um marco histórico para a Nação!
Mestra conta que nesse período, as atividades de oficinas e ensaios que hoje acontecem na comunidade do Bode ainda não existiam. Principalmente devido à grande escassez de recursos básicos que a comunidade enfrenta. Antes dos anos 2000, era apenas um ensaio para ir à passarela e não haviam as oficinas infantis. Mestra Joana Cavalcante construiu essas intervenções que hoje acontecem na comunidade, as oficinas semanais do Encanto e do Encantinho para as crianças sempre com orientação e apoio das Mães do Pina.
Bianca Silvério contribui com sua experiência como mulher negra nas artes há 12 anos, também compartilhando do enfrentamento à falta de acesso e à escassez de recursos básicos. Nos relembra de estratégias históricas neste enfrentamento: a importância do fortalecimento da iniciativa pelo protagonismo da mulher racializada, assim como forjar-se na sua comunidade, juntamente com as mulheres ao nosso redor para enfrentar a violência histórica do racismo e do machismo. Neste sentido de luta, Bianca está formando o primeiro grupo de teatro negro de Maringá, para que estes corpos sejam os protagonistas na produção de Arte no local em que vivem!
Eloá Lamin compartilha seus conflitos como pesquisadora e mulher negra, conta sobre a dualidade do questionamento do conceito da Ciência a partir da Universidade: como (e se) esse discurso é válido para as realidades dissidentes? O espaço universitário é também um local de violência e desconfiança para nós mulheres negras, onde somos Outsiders, como nos relembra Eloá a partir de Audre Lorde.
Eloá enfrentou este peso histórico assim que começou sua trajetória acadêmica. Quando ela encontrou mulheres similares neste local e passou a perceber que essa função profissional de pesquisa é sim possível para mulheres pretas, é que ela entendeu a importância de mais de nós estarmos no espaço universitário.
Esta fala de Eloá é muito importante para nós pois em vários momentos e locais, quando nós colocamos à vista a crítica ao funcionamento da Academia, somos frequentemente respondidas com falas que sugerem: “Não precisam estar neste espaço se não quiserem”. E a esta provocação nós, mulheres pretas, respondemos com a luta pelo direito à educação básica e superior a todos! Pelo direito à formação universitária assim como à luta pelo fim das violências neste espaço.
Deste local vem a luta de Eloá pelas políticas públicas de acesso à universidade, ela e Laís Fialho participaram do movimento que solicitou à instituição a cota racial na Universidade Estadual de Maringá, a UEM; num processo onde precisaram pesquisar e estudar a partir de estatísticas o documento argumentativo, realizando atividades de saraus para colher assinaturas e, inclusive, sofrendo ameaças às suas matrículas, num contexto de luta por acesso à universidade que, naquele momento, contava com apenas 3% de alunos negros e negras. Neste processo foi que Eloá se viu como pesquisadora e passou a estudar e militar pelas políticas afirmativas.
Laís Fialho nos relembra figura histórica para nossa luta, Audre Lorde: o silêncio não irá nos salvar. É por esta insígnia que enfrentamos a lógica do silêncio, da vergonha e do medo e confrontamos os nossos sofrimentos a partir da linguagem, da fala, do corpo, do compartilhamento, do movimento.
Sobre este processo de elaboração, Mãe Joana nos conta sobre a criação das Loas do Baque Mulher:
Relembra que, quando o Baque Mulher foi criado, foi na intenção de ter um local onde as mulheres pudessem tocar e sorrir, ao mesmo tempo. Mestra nos conta que o início do Baque Mulher era o contexto onde as mulheres se reuniam no Recife Antigo, já que na comunidade não era bem aceito mulheres tocarem. Mestra reunia as jovens e ali iam ter os encontros do Baque Mulher, onde ela recebia os relatos de violência e abuso. Foi no Baque Mulher, a partir da leitura e da escuta, que ela compreendeu as problemáticas da violência contra a mulher, assim como se entendeu como mulher preta. A partir desses aprendizados, com os sentimentos de impotência e inconformidade, Mestra Joana também enfrentava o complexo de que a violência precisa ser denunciada, porém a atuação da Polícia na comunidade é muito atravessada também por abusos e violências históricas.
Mestra conhece a Lei Maria da Penha através do Orkut e pensou que era necessário repassar estas informações às meninas da comunidade como forma de defesa. Assim, Mestra compôs a Loa Maria da Penha, a primeira Loa que Mestra escreveu sobre a violência contra a mulher:
MARIA DA PENHA É FORTE
É FORTE PRA VALER
COM SUA FORÇA E CORAGEM
FEZ A LEI ACONTECER
A LEI MARIA DA PENHA
AGORA EU JÁ SEI, 11.340 DO ANO 2006
MULHERES DO MUNDO INTEIRO
COM GARRA PRA VENCER
VAMOS UNIR AS NOSSAS FORÇAS
E FAZER ACONTECER
TEMOS DIREITO A LIBERDADE
TEMOS DIREITO DE VIVER
TEMOS DIREITO, TEMOS DIREITO
TEMOS DIREITO DE VENCER
Mestra conta que a vinda da Loa ao público foi um choque na comunidade. Mesmo assim, ela continuou seu enfrentamento: Ela fazia textos para as meninas levarem para casa, voltarem com atividades escritas explicando o que é a Maria da Penha para que aprendessem sobre o tema. Conta que parecido foi o processo de se compreender como mulher preta, que foi quando compôs Sou Mulher, Negra e Empoderada:
SOU MULHER, NEGRA E EMPODERADA
TRAGO O AXÉ DA NAÇÃO NAGÔ
FEMINISTAS DO BAQUE VIRADO
MULHERES GUERREIRAS TOCANDO TAMBOR
FEMINISTAS DO BAQUE VIRADO
MULHERES GUERREIRAS TOCANDO TAMBOR
NÃO HÁ VIOLÊNCIA
OU MACHISMO QUALQUER
QUE CALE MEU TAMBOR
EU SOU BAQUE MULHER
TOCANDO TAMBOR
TRAZENDO O AXÉ
DO BAQUE VIRADO,
GUERREIRAS MULHER
Nesse período foi quando o Baque Mulher virou o Feministas do Baque Virado, e Mestra Joana continuou escrevendo as Loas para registrar historicamente a presença das suas mais velhas a partir das femenagens também dentro do Encanto do Pina, trazendo os rostos delas para serem vistos.
Bianca ainda contribui para essa reflexão sobre a criação artística pontuando que existem diversas formas de produzir arte militante além do literal, inclusive através do corpo. O Corpo é um comunicado histórico, social e político. Por isso, no seu teatro, através dos corpos negros, ela fala de saudade e amor e isso também é uma mostra política. A arte não precisa ser literal!
Essa roda foi um espaço de nós para nós. Uma grande, simbólica e emocionante abertura do Encontro do Baque Mulher, o qual nós do Baque Mulher Joinville estivemos presentes através das batuqueiras Sara, Emilly, Naju e Estefany, em conjunto com nossa companheira Vanusa do BM Itajaí. Foram 3 dias onde encontramos, rimos, dançamos, tocamos, escutamos, trocamos a experiência de nossas mais velhas e também as mais novas, participando de uma construção que move internacionalmente a condição da luta pelos direitos das mulheres.
Por esta jornada e oportunidade, agradecemos ao Baque Mulher Maringá e à nossa imensa Mestra Joana que, com todo o brilho de Osún e a força de Oyá, nos acolhe e ensina esta construção diária.
MESTRA, Ô MESTRA
QUE ME PROTEGE,
FORTALECE O MEU CAMINHAR
DANÇANDO COM O BRILHO DE OXUM
E AS FORÇAS DO VENTO DE OYÁ
TRAZENDO O BAQUE QUE ENCANTA
SAUDANDO JANAÍNA, INAÊ, IEMANJÁ
MULHER GUERREIRA,
TRAZ O BRILHO DO SEU ORIXÁ
ORA YÊ YÊ MÃE OXUM
EPARREY SOBERANA OYÁ

