Por Repórter Popular – PR
A Terra Indígena Rio das Cobras (PR) foi reconhecida oficialmente em 1901. Ainda que delimitada pelo governo do estado do Paraná, sempre teve que lidar com o desrespeito de suas fronteiras, invasão e destruição de seu território, de sua mata, sua caça e seus remédios.
Em sua história de mais de um século de luta, a terra indígena sofreu reduções pelos acordo de Luppion, na década de 40, em nome da colonização e do discurso racista de que o povo kanhgág ali representava um atraso ao desenvolvimento e progresso da região.
O povo kanhgág e guarani-mbya de Rio das Cobras enfrentou muita luta para garantir seu território de 18 mil hectares, no qual vivem hoje mais de 3.200 pessoas. Nos últimos anos, famílias e lideranças têm sentido o impacto do avanço das monoculturas de soja dentro do seu território, com a diminuição da mata para a transformação em lavouras de soja e milho.
Uma das consequências disso foi a diminuição da água. Já fazem 6 anos que famílias das aldeias Sede, Taquara e Vila Nova sofrem com a falta de água, pois os poços artesianos que serviam para a distribuição da água para consumo doméstico foram diminuindo até que secaram completamente.
Diante disso, as lideranças tiveram que recorrer à Prefeitura, que envia de duas a três vezes por semana dois caminhões-pipas para preencher os reservatórios de água de 10-15 mil litros, o que é insuficiente a demanda local (são 350 famílias somente na Aldeia Sede).
A falta de água na comunidade é algo extremamente grave, mas os problemas não encerram por aí. Somado a isso, existe o desrespeito dos arrendatários que fazem suas lavouras próximas às casas das famílias e fazem a aplicação do veneno em horário em que as pessoas – e até crianças – se encontram próximas das áreas, agravando problemas de saúde.
A diminuição das áreas de mata dentro do território implica numa diminuição da taquara, matéria-prima fundamental de famílias que trabalham com artesanato, a principal fonte de renda para maioria das famílias de Rio das Cobras.
Diante desse cenário cada vez mais complicado, há um esforço em trabalhar na defesa das matas e na recuperação dos ambientes degradados pela monocultura da soja. O objetivo, já deixado muito claro pela lideranças de Rio das Cobras, é a superação do arrendamento dentro da Terra Indígena, mas para isso ocorrer é necessário uma alternativa de trabalho e geração de renda para a comunidade.
E é nesse sentido que a agroecologia vem contribuindo, através de parcerias com a Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), Movimento Sem Terra (MST) e extensionistas apoiadores.

O Espaço Agroecologia Eg Kré (“Nosso Plantio”, em kanhgág traduzindo para o português) ganhou vida no ano de 2024 e é a aposta que se tem feito dentro da terra indígena na Agroecologia, embora não se limite apenas ao trabalho em agroecologia.
Com isso, uma área que por décadas foi utilizada pelo arrendamento com lavouras de commodities agora tem se transformado num espaço de produção de alimento e de vida. Nesse espaço, o objetivo é a implantação de um Sistema Agroflorestal (SAF), porém considerando os limites agronômicos impostos pela degradação e o uso intensivo de maquinário e agrotóxicos para pensar na recuperação daquele solo.
Motivo esse que levou a comunidade optar pela utilização de plantas de adubo verde, como a aveia, para a recuperação do solo. E nessa primavera o plano é de incrementar ainda mais a diversidade daquele agroecossistema.



