chacina em Porto Alegre

Famílias protestam e cobram condenação de PM que cometeu chacina em Porto Alegre (RS) em 2021

Por Repórter Popular RS

Na manhã desta quinta-feira (30) começou o julgamento do policial militar Andersen Zanuni dos Santos, acusado de cometer a chacina que matou quatro moradores do Morro Santana, em 2021, numa pizzaria localizada na zona norte de Porto Alegre (RS).

Alexsander Terra Moraes, 26 anos, Cristiano Lucena Terra, 38 anos, Christian Lucena Terra, 33 anos, e Alisson Corrêa Silva, 28 anos, foram assassinados pelo PM que, no momento do crime, estava fora de serviço.

Parentes e amigos das vítimas organizaram um ato em frente ao Fórum Central da capital gaúcha para exigir justiça. A manifestação ocorreu apenas dois dias após o massacre que deixou mais de 130 mortos nos Complexos da Penha e do Alemão, no Rio de Janeiro, chamando atenção para a violência policial que atinge a população negra e periférica.

Relembre o caso

Tudo começou na Vila Estrutural, no Morro Santana, por volta das 5h da manhã do dia 13 de junho de 2021, quando o policial invadiu a casa da família que comemorava um aniversário. De acordo com relatos, os familiares não conheciam o homem, que teria se identificado como PM, agredido uma das mulheres presentes e pedido para abaixarem o volume da música.

No final da festa, quando quatro homens do grupo saíam e passavam em frente à uma pizzaria, encontraram o policial novamente. Eles se aproximaram para cobrar explicações pela agressão e o PM correu para dentro do estabelecimento, escondendo-se no banheiro.

Imagens de câmeras de segurança mostram o momento em que o policial sacou a arma e atirou contra os quatro homens, que não tiveram qualquer chance de defesa. A defesa jurídica do PM alega que foi legítima defesa. A Brigada Militar abriu processo interno e, de acordo com a Polícia Civil, nenhuma arma foi encontrada com as vítimas.

chacina em Porto Alegre

O que dizem os familiares

O Repórter Popular esteve presente na manifestação e conversou com os parentes e amigos das vítimas da chacina. A filha de Cristiano Lucena Terra explica que as famílias querem justiça. “A gente só pede justiça por eles. Só isso. Só isso que a gente pede. Ele [PM Anderson Zanuni dos Santos] destruiu a nossa família. Ele acabou com a nossa família. A gente só pede justiça por ele. Só isso pra ele descansar”, conta a jovem.

Tanise, cunhada dos irmãos Cristiano e Christian e prima de Alisson, desabafa: “hoje a gente espera a justiça para esse psicopata, esperamos que esse estuprador assassino saia daqui preso, pegue anos de cadeia e seja exonerado porque ele é um monstro! Não tem como ficar defendendo toda a população, sendo que ele é podre.”

Mylene, irmã de Cristiano e Christian, afirma que a família das vítimas segue unida. “A gente era uma família muito unida. Somos! Tanto que hoje a gente está aqui, priorizando a coletividade, a gente está sofrendo juntos, mas segurando a mão do outro”.

chacina em Porto Alegre

Confira a entrevista completa:

Repórter Popular (RP): Vocês moram no Morro Santana?

Familiar: Hoje em dia eu não moro ali, mas as minhas avós, tias e primas moram no Morro Santana. Minha avó hoje em dia tem 78 anos, minha avó mora ali há mais 60 anos. Minha tia também, que tem a idade dela. Então, a família é bem antiga já no morro.

RP: Sei que é difícil ficar relembrando, mas o que aconteceu naquela noite da chacina?

Familiar: Estávamos comemorando o aniversário da Ana Paula. Em algum momento da noite, chegou o assassino dentro da nossa casa, invadiu quatro portões e bateu na Yasmin, que é uma das vítimas, empurrando e querendo que abaixasse o som por causa da esposa e da filha. Mas foi de uma forma totalmente desmedida e posteriormente saiu.

Daí, alguns não moravam ali. Então, quando eles estavam indo embora, eles acabaram vendo essa pessoa na frente da pizzaria e queriam tirar satisfação e entender o que o levou [o policial] a entrar lá. Tipo assim: por que que tu agrediu? Aí foi assim, no momento em que eles foram tentar conversar ali, tirar uma satisfação e entender o acontecimento, que se deu toda a tragédia.

Daí ele [o PM] já saiu do banheiro com a arma em punho. Ah, e com o treinamento, a gente espera que o brigadeiro tenha esse treinamento para proteger a nossa sociedade, e não para executar. Ele deu tiro para abater, para matar e para executar. Então foi uma chacina. Não, não foi alguma coisa assim de dar tiro na perna, tiro no braço ou tiro pro alto. Não foi uma contenção, foi extermínio.

RP: Hoje está começando o julgamento desse policial. Qual é a expectativa da família?

Familiar: Hoje nossa expectativa é de justiça, que a justiça seja feita na sociedade. Ver esse homem que é estuprador, que foi condenado, que é assassino, que é psicopata, vai ser preso porque tenho certeza que a nossa família pode não ser a primeira. 

RP: Não sei se tu está acompanhando as notícias do Rio de Janeiro. Mas, tu acha que tem alguma relação entre a violência que está ocorrendo lá nas favelas e essa violência da polícia daqui?

Familiar: Para nós, negros, eles [os policiais] acham que têm o direito de invadir nossas casas e nos abater! É atirar primeiro e perguntar depois, então eu vejo sim muita relação [com o que houve no RJ].