* Por Mk
Na virada dos anos de 1970 e 1980, a Ditadura Empresarial-Militar enfrentava crescente oposição nos bairros organizados, o movimento negro denunciava o racismo, as mulheres na lutava por direitos, gays, lésbicas e pessoas trans resistiam em seus bares, jornais e espaços coletivos. As violações de direitos humanos já não permaneciam escondidas nas casas da morte, nos quartéis e nas delegacias.
Empresas brasileiras e estrangeiras lucravam, muitas vezes com financiamento direto da Ditadura, além de contarem com repressão sindical. Os sindicatos existentes estavam, em sua maioria, a serviço dos patrões. O aumento do custo de vida sufocava a classe trabalhadora como um todo. O bolo cresceu, mas não se dividiu.
A censura prévia era nacional, as operações repressivas também. Nos últimos três meses de 1975, em várias cidades catarinenses, inclusive Joinville, a Operação Barriga Verde sequestrou, torturou e manteve sobre as suas grandes por até dois anos meios militantes comunistas. As Comunidades Eclesiais de Base estavam organizadas a partir do bairro Floresta.
É a História da organização e resistência popular contada a partir de São Paulo, Rio de Janeiro, quando muito Porto Alegre. A nós resta acompanhar os dias e noites, como se fossemos uma cidade do “trabalho” e “ordem”. Nem sempre é possível escutarmos as memórias de militantes mais velhos e velhas, obras artísticas em distintas plataformas estão ausentes.
Ao conversar com a militância “igrejeira” (muitos dos quais ainda vinculados ao PT e outros que escolheram manter o trabalho comunitário e classista, não eleitoral) se escuta como os critérios de decisão política era construídos no e com o bairro, os métodos de mobilização, agitação e propaganda, bem como as formulações teóricas e análises da realidade, partiam da prática concreta.
Era na rua, no mutirão, na partilha do conhecimento (fosse uma enxada ou o conceito de mais-valia) que se construía a luta. O trabalho era coletivo, e a sociedade futura, também. Sempre com autonomia financeira.
A historiografia já apresenta estudos consistentes sobre o surgimento da oposição sindical no ABC paulista, as greves, o nascimento da CUT e do PT. Em Joinville, porém, os estudos sobre esse período são escassos. Quando se trata da organização classista local, como sindicatos, piquetes e greves, o silêncio é maior. Na academia joinvilense, a situação é ainda mais crítica: há um claro distanciamento entre muitos pesquisadores e a realidade concreta das lutas populares.
Segundo relatos, na segunda metade da década de 1980, em disputas internas no PT, que impactou todo trabalho de organização comunitária com autonomia, uma autoproclamada “militância intelectual que venceu os igrejeiros” impede o acesso a fontes históricas, dificultando investigações independentes com rigor científico e autonomia política.
As memórias da militância “igrejeira” abrem inúmeras possibilidades para questionar o presente. No entanto, quando se trata da produção acadêmica local e das interpretações das fontes históricas, predomina o controle por parte de um pequeno triângulo de autoproclamados “intelectuais”, que fazem da história um instrumento de dominação.
*A coluna Vivo Na Cidade é uma iniciativa do militante Mk, de Joinville/SC, com atuação na luta comunitária e sindical. O objetivo da coluna é relatar aspectos da luta popular na cidade, passando por questões políticas, econômicas e culturais.
