Por que ninguém lê ou fala da literatura catarinense?

Por Mk*

Por que ninguém lê ou fala da literatura catarinense? Uma primeira resposta, no estilo das redes sociais, ou seja, profundidade de um pires, poderia ser: “fascista não sabe ler”, ou “Bolsonarista não escreve”.

Sim, somos um território marcado por votos na extrema-direita, por um histórico de “liberalismo conservador” que antecede a atual conjuntura. Somos parte da política de branqueamento do Segundo Reinado (1840–1889), da cafonice de Balneário Camboriú, de tudo isso que já sabemos (e vivemos). Mas, a luta de classes também pulsa aqui.

Como muitos já escreveram, Santa Catarina também é território de resistência indígena e negra desde a colonização até hoje: a Revolta do Contestado (1912–1916), tão expressiva quanto Canudos; o movimento operário nas décadas de 1910 e 1920; a resistência à ditadura por operários e estudantes; as lutas das mulheres, dos imigrantes e migrantes; do terceiro Centro de Direitos Humanos mais antigo do Brasil (ainda atuante); as oposições sindicais; a formação do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), do Movimento Passe Livre (MPL) e tantas outras lutas populares. Mas, qual é a relação desses dois parágrafos com a pergunta inicial?

É preciso contextualizar o discurso presente nas redes sociais, especialmente entre setores “lulistas” ou “progressistas”, que muitas vezes reproduzem narrativas sem consciência de classe, e, portanto, acabam servindo ao mesmo sistema de dominação que criticam.

Em rodas de conversa com companheiros de militância, de trabalho ou de afeto, a literatura do estado raramente aparece como tema. Em Joinville, por exemplo, a divulgação literária se dá principalmente por meio de ações militantes. Já a produção acadêmica permanece confinada entre os muros da universidade da zona Norte da cidade. É possível identificar parcialmente esboços de respostas para o título, mas ir além demanda um papo presencial.

Porém, de quem estou falando quando falo em “literatura do território do ‘vou descer pra BC'”? Falo, por exemplo, de Cruz e Sousa, poeta negro, nascido em 1861, expoente do simbolismo brasileiro, autor de Broquéis e Últimos Sonetos. Falo também de Salim Miguel, nascido no Líbano em 1924 e radicado em Biguaçu, livreiro da Livraria Anita Garibaldi, autor de obras como Primeiro de Abril: narrativas de cadeia e a voz submersa. Cito ainda Antonieta de Barros, mulher negra que rompeu as imposições do seu tempo para ser professora, a primeira deputada negra eleita no Brasil, autora de crônicas reunidas em Farrapos de Ideias.

Interior da livraria Anita Garibaldi. Salim Miguel (segundo da esquerda para a direita) e Armando Carreirão (primeiro da direita para a esquerda). Fonte: Matos (2018) e @historiadaditadura)

É evidente que três nomes e suas obras não representam a totalidade da literatura catarinense. Mas, ao selecionar exemplos de poesia, crônica, novela e romance, do século XIX ao XXI, com biografias amplas e plurais, em tempos tão opressivos, já é possível iniciar uma conversa sobre diferentes modos de ser, ver e construir nossas subjetividades a partir da palavra escrita e em experiência coletiva.

Essas escritas podem ser encontradas na Biblioteca Pública Municipal Rolf Colin, mesmo com o descaso do prefeito/patrão que não oferece um projeto adequado para o espaço, na Biblioteca Comunitária Lutador Dito, da AMORABI, e em diversas bibliotecas escolares das redes municipais e estaduais.

Caso não encontre, entre em contato com o Repórter Popular pelo Instagram ou Facebook.

  • Biblioteca Comunitária Lutador Dito, da AMORABI (Piso superior do prédio do CEI Professor Juliana de Carvalho): R. dos Esportistas, 510 – Itinga, Joinville – SC, 89233-700
  • Biblioteca Pública Municipal Rolf Colin: R. Cmte. Eugênio Lepper, 60 – Centro, Joinville – SC, 89201-150

* A coluna Vivo Na Cidade é uma iniciativa do militante Mk, de Joinville/SC, com atuação na luta comunitária e sindical. O objetivo da coluna é relatar aspectos da luta popular na cidade, passando por questões políticas, econômicas e culturais.