“Sobrevivendo no Inferno”: desenvolvimento desigual e racismo estrutural – parte 3

Seguindo a série de 4 textos sobre o Sobrevivendo no Inferno (1997), do Racionais MC’s, hoje apresentamos a 3ª parte do trabalho, que busca mostrar pontos estruturantes do disco e que fazem dele o mais radical do grupo e um marco do rap no Brasil. (Os textos saem todas quintas-feiras).

 

O Brasil tem umas das maiores populações carcerárias do mundo, a 3ª segundo o site do Ministério da Justiça.[1] 64%, no índice socioeconômico, é de negros. O sistema carcerário, que também não serve para a reintegração, mas sim pela perpetuação das assimetrias e fraturas sociais, é uma extensão da periferia, com os problemas das drogas, racismo e violência policial. “Diário de um detento” surge desse problema, e ergue-se a partir de uma narrativa composta por Mano Brown a partir de relatos de Jocenir, ex-detento do Carandiru. Na canção, ficam explícitas as desigualdades, os lugares em que os atores sociais ocupam, quem oprime e quem é oprimido: enquanto todos encarcerados “traficantes, homicidas, estelionatários / e uma maioria de moleque primário”, no “grande dia” (dimensão de espetáculo a partir da desgraça dos detentos que serão mortos), terão suas vidas acabadas, os “cachorros assassinos”, vulgo polícia militar, ganha medalha de prêmio pelas mortes efetuadas e o governador, que pode se esconder atrás de um telefone, fica tranquilo.

A anestesia aplicada constantemente pela sociedade do espetáculo não fica de fora da crítica aguda e pontal da música: “Cadeia? Guarda o que o sistema não quis. / Esconde o que a novela não diz.” A mídia mascara o desenvolvimento fraturado e aliena a população; a PM leva a violência física para dentro das comunidades enquanto o Estado as violenta simbolicamente ao não dar condições de subsistência, direitos básicos garantidos por lei. Essa crueldade aparece de maneira meio sarcástica nos versos sofisticadamente entoados:

Cada sentença um motivo, uma história de lágrima,
sangue, vidas e glórias, abandono, miséria, ódio,
sofrimento, desprezo, desilusão, ação do tempo.
Misture bem essa química.
Pronto: eis um novo detento

Versos quebrados, cujo final necessita do próximo para completar-se, rimas que não obedecem tampouco a ordem canônica (histórias–glórias; sofrimento–tempo) como que simbolizando, na forma, as fraturas sociais da sociedade. O olhar analítico de quem vive o dia a dia da violência não poderia ser mais preciso. Invertendo e contestando a narrativa cotidiana ouvida nos jornais sobre as causas da violência, se faz reconhecida entre seu interlocutor principal: o irmão negro da periferia. Essa mesma sociedade que exclui, olha para o que não está no centro com ar de exotismo, e Mano Brown capta muito bem esse sentimento ao colocar, rapidamente, o olhar das pessoas ao passar pelo presídio do metrô. Essa “gente de bem”, “católica”, faz com que o narrador tenha que se posicionar e dizer que aquilo não é um zoológico. Junto com o exotismo e certo fetiche, a explicitação da reificação no atual estágio da mercadoria, com peso ainda maior aos detentos sem as mínimas condições de salubridade: “Ladrão sangue bom tem moral na quebrada. / Mas pro Estado é só um número, mais nada. / Nove pavilhões, sete mil homens. / Que custam trezentos reais por mês, cada”. Custam menos que “seu celular, seu computador”.

Drogas, percursos cíclicos de violência e morte, desenvolvimento desigual e combinado, assimetrias sociais e racismo permeiam todo o disco. E permeiam-no todo porque este diz respeito não só às periferias de São Paulo, mas de todo país. “Periferia é periferia em qualquer lugar” é o dístico falado a todo o momento na canção “Periferia é periferia”, e isso é reforçado pelo “Salve” final. Traz, contudo, um ponto de tensão que, como dito, é indissociável da composição do Racionais, mas que figura, em geral, de maneira indireta: a escravidão. Aparece primeiro nos versos “Se a escravidão acabar pra você / Vai viver de quem? Vai viver de quê? / O sistema manipula sem ninguém saber”, apontando o dedo para o senhor de engenho ou para as mega empresas que usam trabalho escravo hoje em dia, indicando novamente uma suspensão do tempo histórico no qual o racismo e a violência ao povo negro nunca são superados. Aproveitam para estocar novamente a manipulação Estatal-midiática a qual esconde os problemas reais e molda a opinião das massas a seu favor. “escravo humano, um simples nordestino” retoma o tema mais à frente.

Outra sugestão interessante que a canção traz é uma espécie de determinismo, de comportamento teleológico de parte dos moradores de periferias e que tem seu correspondente em Capão Pecado. “Olha só como é o destino, inevitável / O fim de vagabundo, é lamentável” sugere uma estrutura que se repete na vida dos seus manos e que, perigosamente, pode ser imobilizante (no romance do Ferréz, um dos personagens chega a falar em lugar amaldiçoado ao se referir à ciclicidade da vida na favela). Preso às estruturas, sem saída, abre-se dois caminhos: ação ou resignação. Analisando o disco em conjunto, fica clara a posição do grupo, mas é preciso apontar esse ponto que, pela dubiedade, possibilita certa contradição. (Como é possível perceber uma autonomia de vozes no grupo, uma composição dramática dentro da canção, seja pelos diálogos e pelas partes cantadas juntas mas aparentemente dispersas, talvez se possa apontar para isso a razão da dubiedade.)

O racismo ganha protagonismo em “Qual mentira vou acreditar”, sendo a resposta irônica à pergunta do título. Se há pessoas que realmente acreditam que não há racismo no Brasil, significa que o trabalho de apagamento da memória e a construção de um imaginário de democracia racial, pelo Estado e mídia, foi bem sucedido. Em mais uma passagem dialógica, uma das pessoas diz que é para a segurança do narrador acreditar na democracia racial. O acontecido com Carlinhos Brown, citado acima, parece ter sido a inspiração para a música e os versos destacados, mesmo tendo acontecido após o lançamento do disco.

[1] Disponível em <http://www.justica.gov.br/news/ha-726-712-pessoas-presas-no-brasil/view>

Rodrigo Mendes

Rodrigo Mendes

Graduando em Letras pela UFRGS, colunista do jornal Repórter Popular e da revista de arte Artrianon, professor de literatura na ONGEP, atualmente pesquisa sobre o Racionais MC's.