EXTENSÃO ÀS LUTAS E UNIVERSALIZAÇÃO DOS DIREITOS

Seminário que reuniu rede nacional de projetos de extensão ligados a Arquitetura e Urbanismo promete ampliar o diálogo com os movimentos sociais

09 de Agosto de 2017, Gustavo Ruwer

 

Entre os dias 24 e 30 de julho de 2017, a cidade de Anápolis (GO) recebeu dezenas de estudantes para o XXI Seminário Nacional de Escritórios Modelos de Arquitetura e Urbanismo (SeNEMAU) sob a temática “Entremeios: entre a cidade que é, e a que parece ser”. O Seminário consolida os 20 anos de atuação dos Escritórios Modelo de Arquitetura e Urbanismo (EMAUs), movimento extensionista presente em mais de 30 cidades de todas as regiões do país.

 

Como resultado dos debates do encontro, o Movimento EMAU publicou seu primeiro manifesto, com o título “Extensão às lutas e universalização dos direitos”. O manifesto traz a público o posicionamento político do movimento extensionista que se organiza de maneira transdisciplinar, autogestionária e anticapitalista, cooperando conjuntamente com movimentos populares do campo e da cidade.”

 

EMAUs?

 

Os EMAUs são grupos de Extensão Universitária organizados por estudantes que atuam como apoiadores de movimentos populares e comunidades que normalmente não possuem acesso à arquitetura profissional.

 

Os  projetos participativos são desenvolvidos em espaços de uso coletivo. Através da troca entre os saberes popular e acadêmico (das mais variadas áreas de conhecimento), busca-se estimular a autonomia e a organização das comunidades e estudantes envolvidos através de sua relação com o espaço. Os grupos acreditam que organização popular e participação comunitária exercem um papel de transformação social fundamental para construir outros projetos de sociedade.”

Corte do principal fomento à extensão

 

O Movimento denuncia o corte do principal programa de fomento à extensão (Programa de Extensão Universitária – PROEXT). O edital, que havia sido reduzido de R$ 80 milhões para R$ 15,32 milhões, em 2016, não foi lançado pelo Ministério da Educação em 2017.  A extensão que reivindicamos está cada vez mais marginalizada pelas universidades por representar interesses populares, o que dentro desse contexto, passa a ser visto como um ameaça ao modelo vigente.”, afirma o manifesto.

 

A aprovação do PL nº 13.465 (antiga “MP da grilagem”)

 

Os grupos se posicionam contra o projeto de lei sancionado pelo presidente Michel Temer em julho de 2017. O Projeto de Lei 13.565 prevê a regularização fundiária de áreas rurais e urbanas em todo o país e também altera a legislação da reforma agrária. Para os grupos, o PL “amplia dificuldade de acesso à terra, reforça os abismos sociais e afirma as relações de poder já existentes entre o capital e o Estado sobre a população do campo, da cidade e da floresta”.

 

Autogestão estudantil

 

Os grupos são essencialmente autogeridos por estudantes, embora os projetos desenvolvidos muitas vezes contem com o apoio técnico de professores ou profissionais em alguns casos.  “Diferenciamos a gestão dos escritórios da gestão dos projetos, onde o primeiro depende da autogestão estudantil e o segundo precisa, muitas vezes, de um respaldo técnico.”

 

Essa modo de organização esbarra na estrutura vertical das Universidades, que exige a assinatura de um membro docente para a oficialização de projetos de extensão. “Insistimos na reivindicação da nossa independência, e de outras iniciativas estudantis, na validação de projetos de extensão, sem a obrigatoriedade de um professor”, reivindica a primeira carta aberta dos EMAUs, produto do SeNEMAU 2017.

 

Uma prática transformadora

 

Como de costume, o seminário se caracteriza por momentos de trocas entre estudantes e alguma comunidade que o EMAU organizador do evento esteja apoiando. Nesse ano, organizado pelo Escritório Modelo PRISMA (Projetos de Interesse Social e Meio Ambiente), o evento contou com participação de membros da Associação Cultural e Artística de Anápolis (ACAA).

 

A associação desenvolve dezenas de projetos culturais como o Projeto Fios da Memória (tradicionais fiandeiras e tecelãs da cidade), Capoeira Angola, Dança de Coco, Dança do Jongo, Bumba meu Boi e Samba de Roda. Os dias finais do Seminário foram de mutirão em que se realizaram melhorias no prédio da Associação.

A prática dos EMAUs demonstra coerência em relação aos princípios defendidos. Os grupos acreditam que os territórios brasileiros reproduzem a desigualdade social presente em nosso país. Em contraponto a isso, o Movimento EMAU busca “uma alternativa de superação do modelo hegemônico de produção das cidades através de processos coletivos e participativos”.

 

O movimento reafirma o seu compromisso com a transformação da sociedade e coloca a necessidade da ampliação de diálogo com as lutas sociais. “Estamos do mesmo lado. Vamos à luta!”, conclui o Manifesto.

 

Publicações do SeNEMAU 2017:

 

Fotos: Allyne Laís