Entrevista com Ithue, militante anarquista secundarista da ROE/Montevideo

Estudante analisa a situação geral da educação no Uruguai, as lutas do campo libertário e feminista, Uber, legalização da maconha, ELAOPA e a criminalização dos movimentos sociais.

Em fevereiro aconteceu o XII ELAOPA (Encontro Latinoamericano de Organizações Populares Autônomas). O Morro Santana esteve presente com delegados representando a rádio A Voz do Morro e a Biblioteca Visão Periférica. Nos dias após o encontro, tive a oportunidade de ficar na casa da Ithue, compa secundarista da ROE (Resistencia Obrera y Estudantil) de Montevideu e trocar algumas ideias. Segue tradução da entrevista realizada com a compa no dia 17.02.2017 e o áudio na íntegra que foi ao ar na rádio dia 27.03.2017.

Gustavo — A Voz do Morro
Boa tarde, estamos aquí em Montevidéu com Ithue, uma militante libertária secundarista e eu vou fazer algumas perguntas para ela. Vamos?

Ithue — ROE
Sim.

Gustavo — A Voz do Morro
Ithue, pode te apresentar, dizer tua idade, em que ano está no colégio, falar um pouco sobre tua organização politica e sobre ti?

Ithue — ROE 
Olá, meu nome é Ithue, tenho 16 anos, estou no quinto ano do LICEO (último ano do colégio), e milito na ROE (Resistencia Obrera Estudantil).

Gustavo — A Voz do Morro
Pode falar um pouco sobre a ROE?

Ithue — ROE
Sim, é uma organização político-social com tendência anarquista em que se trabalham diversas temáticas, lutas e solidarizações entre trabalhadores e estudantes.

Gustavo — A Voz do Morro
Como está a situação geral da educação pública no Uruguai?

Ithue — ROE 
Bueno, a educação pública está em deterioração. Houveram cortes a nivel de matéria, de carga horaria e de orçamento. Por isso, a luta no ano de 2015. Foi para cobrar do governo um maior investimento para educação, para os professores e para os diferentes grupos que precisam. Lamentavelmente, como a educação pública está mal, as pessoas tendem a ir para os colégios privados, porque querem ter uma melhor educação.

Gustavo — A Voz do Morro
E sobre essa luta em 2015, pode falar um pouco mais?

Ithue — ROE
Sim, em 2015 seria votada a designação do orçamento para educação y, bueno, nós lutamos para que houvesse 100% do PIB do Uruguai designado para educação. Fizemos greve, ocupações de instituições, manifestações que foram fortemente reprimidas pela polícia, basicamente isso.

Gustavo — A Voz do Morro
E essa luta foi protagonizada basicamente por estudantes secundaristas?

Ithue — ROE
Basicamente, foi protagonizada por estudantes e professores em conjunto com outros sindicatos também. Na ROE se plantou um forte laço solidário entre trabalhadores de diversas áreas, professores e estudantes, para unificar a luta. Y Bueno, todos lutamos por isso, por um maior investimento, porque se somos professores estudantes e isso favoreceria a gente, os outros trabalhadores também tem filhos que estudam e que também necessitam de uma educação boa pública, grátis, que não precisem ir a educação privada para aprender.

Gustavo — A Voz do Morro
Bom, o que aconteceu em 2015 aqui é muito parecido com o processo que estava acontecendo em 2016 no Brasil e final de 2015 também, mais em São Paulo, com as ocupações de colégios por estudantes secundaristas. Creio que isso foi um pouco influenciado pelo processo que aconteceu aqui, também. Como foi a repercussão das ocupações por aqui?

Ithue — ROE
Das ocupações no Brasil?

Gustavo — A Voz do Morro
Sim.

Ithue — ROE
Na realidade, aqui, as pessoas em geral não se inteiraram muito sobre o que estava acontecendo no Brasil. Porque com tudo que estava acontecendo por aqui, a mídia não informava muito sobre esas coisas, aproveitaram que o povo daqui estava revoltado e não falou sobre o que acontecia no Brasil nem nada. Claramente, nós nos inteiramos e fizemos entrevistas a estudantes secundaristas do Estado do Paraná para que as pessoas se interesassem, para informar e publicamos no periódico da ROE essa entrevista. Mas não, não foi influenciada porque pouca gente conhecia o que estava acontecendo no Brasil, mas sim, foi parecida.

Gustavo — A Voz do Morro
E tu pode traçar um panorama mais geral, além da educação, pelo que os libertários estão lutando aqui no Uruguai?

Ithue — ROE
Sim, nós, libertários aqui, nos últimos tempos, não lutamos por uma cosia em especial, apoiamos a luta que se necessita. Se precisa na educação, lutamos na educação, por uma saúde pública, contra a participação publico privada… Conta o tudo o que, hmmm… Tentando chegar ao que realmente se quer, se não, vão privatizar tudo… Contra os fascistas, contra a repressão a estudantes e a professores… Contra aumentar a polícia nas ruas para que não comecem a nos vigiar. O que na realidade fazem é ficar parados e roubarem nosso dinheiro e não fazem nada, basicamente isso.

Gustavo — A Voz do Morro
Aham.

Ithue — ROE
Ah, e contra os desalojos que se fazem as pessoas que querem ocupar, para quem sabe, começar uma comunidade, tem uma tendência libertaria que estão cortando todo o tempo… Basicamenete contra o sistema.

Gustavo — A Voz do Morro
Me parece que a ROE, aqui, tem uma inserção dentro do SUATT, o indicato dos taxistas, e no Brasil ficamos sabendo que havia uma luta contra a entrada do Uber aqui em Montevideu. Coisa que se aconteceu em muitas as cidades do Brasil, mas não se viu uma luta organizada, principalmente pelo campo libertário e da esquerda. No Brasil pareceu que, muitas vezes, a esquerda estava defendendo o Uber. Pode falar um pouco de como foi essa luta aqui?

Ithue — ROE
Sim, muita gente do SUATT, sindicato do Táxi daqui, está na ROE. E nós, em solidareideade e também porque é nosso problema, lutamos fortemente contra o Uber, que é a privatização de um transporte popular, como é o taxi. Privatizá-lo porque não é qualquer um que pode dirigir o Uber, tem que ser gente com dinheiro, tem que ser carro só de 2010 adiante. Por um lado, sai mais barato mas depois, por outro lado, com o tempo, vai sair muito mais caro, porque quando quiserem aumentá-lo não vai ter problema. Não como o taxi, que cada vez que tentam uamentar a tarifa os trabalhadores do sindicato lutam para que não se aumentam e para que as pessoas possam pegar. Y bueno, o que implementaram no uruguai, a esquerda e o governo que está agora, entre aspas “de esquerda”, apoiou. Então, só um votou contra e não valeu nada porque todos os outros são a favor do Uber. E estão a favor, claramente toda a esquerda. E nós, não digamos todos os libertarios, mas os que estão na ROE, temos fortes laços com o SUATT nos inteiramos bem, porque não é toda gente que estava informada. Nos informamos e também lutamos, fizemos muitas manifestações, foi muito forte.

Gustavo — A Voz do Morro
Tu como mulher, jovem, estudante secundarista, como avalia que está a luta feminista no uruguai?

Ithue — ROE
Bueno, creio que a luta feminista, comparado ao que era antes até agora cresceu no Uruguai. Não só cresceu como se organizou, se organizou muito mais. No ano passado e nesse ano, houveram muitos feminicídios, lamentavelmente, pela violência machista. Por acharem que a mulher é de uma pessoa, de um homem. Nos mobilizamos, todas as feministas, porque é a solidariedade. Se tocam a uma tocam a todas, porque são gente como nós, entendes? É uma coisa muito forte que faz isso. Lamentavelmente, as mulherres que não são feministas, muitas vezes ridicularizam nossa luta e defendem os machos, coisa que eu creio que pra luta feminista é muito “trancado”. Nos tranca a luta, porque se tuas próprias… que no futuro poderiam ser companheiras ficam te tirando para trás, te ridicularizando é muito feio. Y bueno, mas estamos tratando de cada vez serem mais e lutarem contra que aconteça isso. Uma das medidas que foi tomada internacionalmnete é uma greve no 8 de março, y bueno, vamos tratar de acatar essa greve e aos poucos ir diminuindo o peso que tem os machistas na sociedade e tendo mais respeito com as mulheres.

Gustavo — A Voz do Morro
Uruguai passou por um processo de liberação da maconha há alguns anos atrás com Pepe Mujica. Foi um exemplo que ficou muito famoso no mundo todo, no Brasil também. Muita gente tem Mujica como um ídolo ou algo assim. Como tu pensa que foi esse processo, o que mudou com a liberação, se diminuiu a violência do narcotrafico, o que pensas sobre tudo?

Ithue — ROE
Aqui, não há tanto narcotrafico e violência como no Brasil. Penso que isso foi uma estratégia da esquerda para tentar uma maior aceitação da população. Ainda mais da população que consome maconha, que é bastante, entre os jovens. De causar uma imagem para o mundo de que ele (Mujica) seja uma pessoa honesta e boa, e não. Na realidade é uma estrategia, não é que eles pensem que a maconha é boa, fizeram pra atingir essa parte da população que estava indecisa ou contra o governo. Bueno, aqui teve uma boa aceitação porque antes não se podia fumar em todos lados, nas ruas, agora está um pouco mais livre, um pouco. Antes plantar era ilegal, agora é legal, não tem que estar comprando, podes ter tuas proprias plantas. Mas eu creio que antes de ser algo pensado na população foi algo que se implementou como estratégia política, nada mais.

Gustavo — A Voz do Morro
Estamos aqui porque nos conhecemos no ELAOPA. Creio que é o teu primeiro elaopa, assim como a mim. O que tu achou do encontro, como avaliou essa possibilidade de intercambio politico e social entre várias organizações da América Latina?

Ithue — ROE
Bueno, ELAOPA me entusiasmou muito quando me interei que seria aqui. Etivemos preparando textos disparadores estudantis, barriais e sindicais desde a ROE. E bom, pra mim, como eu te disse, foi meu primeiro ELAOPA e gostei muito, porque houve muito intercambio de distintos lugares com uma aposta em comum, que é boa. Porque eu não sabia que em muitos paises havia se passado a mesma coisas que aqui. No Brasil, eu sabia porque havia feito uma entrevista a uma brasileira, mas não sabia que na Argentina, Colombia, Chile se passava o mesmo. E bueno, isso serve para nos dar conta que estão implementando em toda latinoamerica, de pouquinho e de distintas maneiras. E as pessoas não estão se informando, por que como a mídia é oficialista, não transmite isso. E bom, foi muito importante o intercambio que houve e me serviu como uma aprendizagem para conhecer gente que está na mesma luta e com quem poderei falar.

Gustavo — A Voz do Morro
De uma das comissões do ELAOPA, a de Direitos Humanos, se saiu uma moção de solidariadade aos criminalizados politicos no Brasil. Desde Rafael Braga, morador de rua negro, pobre, que foi preso em 2013 por portar água sanitaria e desde lá esta preso — o unico preso politico do brasil de 2013. E também em solidariedade aos compas do Bloco de Luta pelo Transporte Público, que também por protestos de 2013, por estarem organizando e participando de atos estão sofrendo perseguição politica por formação de quadrilha, invenções sem provas, de posse artefatos explosivos… coisas assim. No Brasil o panorama é de muita repressão aos movimentos sociais, como está a repressão aqui?

Ithue — ROE

Sim, aqui a repressão que se dá é muito forte, ainda mais para os estudantes, que são os que mais estão mobilziados. E que somos mais manipuláveis, capaz. E com mais repressão nos dá medo, não é tanto como para os docentes ou trabalhadores, que já estão mais acostumados, já sabem que não tem que ficar com medo disso. Então a nós é que mais podem atacar. A nós, em varias manifestações houve forte repressão. Em 2015 se ocupou o Codicen (Consejo Directivo Central) por estudantes e houve uma forte repressão com varios companehiros feridos, lastimados. Quando era uma manifestção pacifica onde nunca tentamos fazer nada violento contra eles, a não ser tentar chegar a algum acordo e conseguir os objetivos que tinhamos, chegarmos a um acordo. Não se conseguiu e mandaram milicos para nos desalojar e nos reprimiram fortemente. E a partir daí, reprimiram constantemente. Y bueno, creio que não devemos ter medo, que quanto mais nos tentem reprimir, mais temos que resistir e nos defendermos, termos ação direta para que eles se dêem conta que por mais que mandem milicos a nos pegar não vamos desistir e vamos manter nossos ideias firmemente, seguir lutando fortemente e cada vez mais com mais convicção para tratar de mudar. Y bueno, se há uma forte repressão, fizemos manifestçaões contra a criminalização dos protestos. E eu creio que falta mais conscientização por parte das pessoas que os milicos não são bons, não estão para nos ajudar, estão para todo o tempo nos cortar e nos manter num molde, e que não podemos sair, por que saimos dali, nos pegam, nos reprmimem fortemente. Não nos atiram bombas aqui. Mas nos pegam diretamente com paus nessas manifestçaões, sem piedade. Há companheiros que eles bateram na cabeça e deixaram fortemente feridos se não importa a eles. Nunca importa a eles como ficamos. Importa a eles que nos calemos e fiquemos quietinhos, sem lutar, coisa que não fazemos. Vamos seguir lutando cada vez com mais convicção e mais força.

Gustavo — A Voz do Morro
Para finalizar, quer deixar alguma mensagem aos brasileiros e brasileiras?

Ithue — ROE
Sim, eu quero deixár-los uma mensagem que trasmito aqui e quero que vocês espalhem. Que é justamente sobre o que estávamos falando antes. Por mais que haja muita repressão por parte da polícia temos que lutar com mais força e RESISTIR, RESISTIR e RESISTIR e nos solidarizarmos com outros movimentos que podem nos ajudar, não só por um lado como estudantes por um lado e trabalhadores por outro, sindicalistas… Não, todos juntos Porque se nos apoiamos com solidariedade serão muito mais leves as repercussões. E pensar que se há mais repressão é porquê eles tem mais medo de nós e pensam que somos uma ameaça. Então isso significa que é o momento em que temos que resistir e resistir e não deixar nos reprimirem. Temos que ter ação direta e estar contra eles o tempo todo e fazer tudo que se pode fazer para que se deem conta que não vão nos amedrontar com toda a repressão que nos mandam. Que vamos seguir lutando e não vamos parar! Basicamente isso.

Gustavo — A Voz do Morro
É isso então, muchas gracias pela entrevista, gracias pelos últimos dias que me recebeu em tua casa com tua familia, todxs são muito queridxs, são como uma família pra mim agora. Estás convidada tambem pra conhecer o Brasil, ficar lá em casa, conhecer nossa luta em Porto Alegre. E é isso, arriba lxs que luchan! Seguimos até o proximo ELAOPA, ou antes, em todas as lutas de latinoamerica e do mundo todo.

Ithue — ROE
Bueno, muchas gracias, igual para usted!