“Sobrevivendo no Inferno”: desenvolvimento desigual e racismo estrutural – parte 4

Hoje chegamos ao último dos textos da série sobre o Sobrevivendo no Inferno (1997), do Racionais MC’s. Depois de 4 textos, busquei mostrar pontos estruturantes do disco e que fazem dele o mais radical do grupo, em suas críticas e dicção, e que marcou o rap no Brasil.

 

“Diário de um detento”, com ritmo cadenciado e flow controlado, inaugura o que estou chamando de segunda parte do disco. Antes sua entoação soa mais agressiva; daqui em diante, depois de construída a base, administra e “sintetiza-se” as criticas, direcionando-as mais. Sistema carcerário, periferias e racismo, cada qual ocupando majoritariamente as canções que seguem a virada, para chegar em “Mágico de oz” e depois “Fórmula mágica da paz”. Estas últimas injetam esperança ao disco, pelo beat mais ameno e a entoação mais cadenciada, como dito acima. Além disso, versam sobre um mundo utópico onde não existiria “fome, droga nem polícia” (“Mágico de oz”) e pedem a paz nas periferias (“Fórmula mágica da paz”).

“Mágico de oz” é a metáfora encontrada por Edi Rock para simbolizar um mundo em paz para sua e para as periferias ao redor do Brasil. Imaginando aquele mundo quase onírico, suspende a realidade de violência e morte a que ele e seus irmãos enfrentam no dia a dia. Esse tom do real emerge nas canções do grupo, para além da matéria social que é ficcionalizada (ou ao menos trabalhada formalmente) através do imperativo da voz falada. Não são poucos os momentos de fala, depoimento e testemunho no disco. “Gênesis (intro)”; as estatísticas de “Capítulo 4, Versículo 3”, que além de faladas, por si só representam essa espécie de estatuto da verdade real que direciona a música; “To ouvindo alguém me chamar” e “Rapaz comum” tem entradas de sons naturais, justapostos ou sobrepostos às partes cantada; “Diário de um detento” se inicia em tom de testemunho e segue com um flow muito próximo da fala; “Periferia é periferia” e “Em qual mentira vou acreditar” mimetizam muitas situações dialógicas; em “Fórmula mágica da paz”, Mano Brown faz um apelo pela paz nas favelas, um apelo falado e cantado; “Salve”, assim como “Gênesis” é só falada, finalizando o disco com a união de todos oprimidos pelo país. Em “Mágico de oz”, o testemunho da criança no início dá o tom da música e de todo disco até então. A tensão que existe entre o real e o simbólico no Racionais é elevada até o limite, ultrapassando a linha tênue que os separa, pois busca mudanças objetivas no mundo real.

 A pobreza permite a desestruturação do núcleo familiar (muitas vezes representado pelo pai ausente, seja por trabalho ou bebida)[1]; a criança, com medo da polícia e sem oportunidade por ser negra e pobre, “se espelha em quem ta mais perto”; o tráfico ocupa a lacuna que o Estado abre, propositalmente, e a violência germinada ali volta para a sociedade; em movimento contínuo e circular, a morte ultrapassa o muro e depois volta, atacando sempre com mais ferocidade a periferia desprotegida pelo poder público. Em uma realidade assim, a esperança de um mundo melhor pela via da luta e da resistência parece se sobrepor pela esperança no divino, como Edi Rock falará ao final, em passagem não entoada. De novo parece haver uma contradição, outra tensão entre a resolução e enfrentamento dos problemas por via material ou espiritual. É compreensível entender a passagem de um a outro pela opressão sistemática que o povo negro sofre. No entanto, um não anula o outro, e no desenvolvimento do disco a luta real pelo fim das opressões se dá, em grande maioria, no plano material.

“Fórmula mágica da paz” faz um arco de vida do narrador (cuja distância entre este e Mano Brown é pequena, assim como em várias das canções do grupo, podendo ser vista em: “”E aí mano Brown cuzão? Cadê você? Seu mano tá morrendo o que você
Vai fazer?””). E esse arco é também o do próprio disco, que encontra na última música (estou desconsiderando “Salve”) um fechamento de esperança, sintetizando o objetivo do grupo: a busca pela paz, mesmo que com violência. Historicamente nenhum direito foi concedido, mas sim conquistado através de lutas violentas e contínuas. “muito velório rolou de lá pra cá, / Qual a próxima mãe que vai chorar?” mostra o que repetidamente digo nesse trabalho, uma suspensão do processo social, que em outras palavras é o desenvolvimento desigual e combinado agindo na sua face mais cruel: morte e violência às periferias, vida em paz e protegida aos jardins. Os velórios não diminuem, mas acompanham o arco traçado no disco e que provém do cotidiano suicida da periferia. O símbolo do não avanço do combate à violência policial, ao racismo, à desigualdade social, está sintetizado nos versos assustadoramente reais e crus que Mano Brown entoa: “Assustador é quando se descobre que tudo deu em nada e / Que só morre pobre”. O emissário não incluiu o Capão Redondo no seu itinerário, a violência não diminuiu, e por isso Sobrevivendo no Inferno se faz tão necessário ainda hoje.

“Jorge da Capadocia” e “Salve”, com a mesma melodia, dão ao disco um sentido de unidade, marcando seu início e o fim. Aquela, com participação de Jorge Ben, se relaciona mais com as duas últimas músicas, demonstrando a fé do grupo implicada na sua realidade cotidiana como apoio à resistência, do etéreo ao material; não é rap e predomina a entoação à fala. “Salve” retoma a melodia inicial e mostra a união das periferias ao redor do país. “Eu vou mandar um salve pra comunidade do outro lado do
muro / As grades nunca vão prender nosso pensamento mano…”. Quebrar o muro pela união das periferias contra o Estado racista opressor; manter erguido o muro contra a “miscigenação” e conciliação dos conflitos sociais.

O racionais não é um grupo de artistas, mas de terroristas. “Violentamente pacífico, verídico / Vim pra sabotar seu raciocínio / Vim pra abalar seu sistema nervoso e sanguíneo”. O ataque ao interlocutor em momentos como esse (e que se repetem ao longo do disco) resulta numa tomada de posicionamento radical, não conciliatório, que se coloca junto a milhares de manos contra o playboy, contra o Estado, contra a mídia, contra o capitalismo. O desenvolvimento assimétrico abriu fraturas que propiciaram um efeito colateral e dali surgiu o Racionais MC’s. Os buracos do desenvolvimento do processo social brasileiro foi tensionado até o limite e então emerge do Inferno a dicção que desestrutura a sociedade, violenta pela linguagem e aponta o dedo para os culpados pela miséria e morte de milhares de negras e negros. Radicais e violentos pela sua fratria, Sobrevivendo no Inferno é um marco na música popular brasileira, e hoje ainda soa natural, devido a sua força de realidade e trabalho estético, e pela constante e ininterrupta opressão ao povo negro perpetrada pela sociedade brasileira.

[1] Mais uma vez o diálogo com Ferréz é produtivo: Rael se via nessa posição muitas vezes, além de observar como se davam as relações familiares de seus amigos. O álcool é problema contínuo, assim como a violência policial.

Rodrigo Mendes

Referências:

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Rodrigo Mendes

Graduando em Letras pela UFRGS, colunista do jornal Repórter Popular e da revista de arte Artrianon, professor de literatura na ONGEP, atualmente pesquisa sobre o Racionais MC's.